Se as igrejas aplicassem uma prova surpresa sobre a Bíblia no próximo culto, a maior parte dos bancos seria reprovada. A frase abre o relatório que a Lifeway Research publicou em 3 de novembro, e os números sustentam a provocação. A média dos participantes ficou em 51 acertos de 100 possíveis.
Pastores costumam desconfiar de que suas congregações conhecem pouco as Escrituras. O que faltava era medição. Scott McConnell, diretor executivo da Lifeway Research, disse que o estudo oferece agora essa evidência objetiva: a maioria dos frequentadores de igreja não aprendeu, ou não guardou, muita coisa do conteúdo bíblico e da forma como a Bíblia se organiza.
01 O que foi medido
O questionário online foi aplicado entre 12 e 29 de agosto de 2026 a 2.012 adultos americanos que se identificam como protestantes, católicos ou ortodoxos e frequentam a igreja num mês típico. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais. As dezenas de perguntas se dividiram em oito blocos: personagens bíblicos, em que livro está cada narrativa, ordem dos acontecimentos, versículos para completar, divisões da Bíblia, Antigo ou Novo Testamento, frases que estão ou não na Bíblia, e conhecimento geral.
McConnell explicou que os pesquisadores evitaram personagens e episódios obscuros. A intenção era medir a lembrança do que as pessoas já leram e ouviram, sem pegadinhas.

Gráfico 1. Distribuição das notas (escala americana; F equivale a reprovação). Fonte: Earls (2026).
02 Onde a memória falha
Os episódios mais conhecidos sobrevivem bem. Quase todos sabem que Moisés recebeu os Dez Mandamentos, e quatro em cada cinco completam João 3:16. O desempenho cai quando a pergunta exige localizar um texto, situá-lo na história ou lembrar versículos menos repetidos no púlpito.

Gráfico 2. Percentual de acertos em perguntas selecionadas. Em vermelho, perguntas com menos da metade de acertos. Fonte: Earls (2026).
A pergunta sobre o primeiro rei de Israel mostra o tipo de confusão. Saul foi a resposta mais escolhida, com 45%, mas 32% marcaram Davi e 11% marcaram Herodes, um rei do período de Jesus. Na pergunta de ordem cronológica do Antigo Testamento, só um em cada nove acertou.
O teste também apresentou livros e frases que não existem na Bíblia, e muitos foram aceitos como bíblicos. Dois em cada três (67%) disseram que Ezequias é um livro da Bíblia, 51% disseram o mesmo de Agar, e 44% incluíram o Evangelho de Tomé. Só 51% sabem que a frase “Deus ajuda quem se ajuda” não está nas Escrituras.
Filemom, que está no Novo Testamento, enfrentou o problema inverso: 26% disseram que ele não faz parte da Bíblia. Na lista de milagres de Jesus, metade não percebeu que transformar pedras em pão nunca aconteceu. Essa foi, aliás, a proposta que Jesus recusou na tentação no deserto.
McConnell resumiu o padrão assim: os frequentadores se saem melhor ao reconhecer frases e associar pessoas a acontecimentos, e pior ao lembrar versículos, entender as grandes divisões da Bíblia e colocar os eventos em ordem.
03 O hábito explica mais do que a demografia
Homens e mulheres tiveram notas praticamente iguais, e não houve diferença estatística entre grupos étnicos. A faixa de 30 a 49 anos teve média maior que a de 50 a 64 (54 contra 48), e é nesta última que fica a maior taxa de reprovação, 71%. Pessoas com crenças evangélicas acertaram em média 55%, contra 47% das que não têm essas crenças.
A diferença maior aparece quando se olha para o hábito.

Gráfico 3. Nota média (0 a 100) segundo a frequência de leitura da Bíblia. Fonte: Earls (2026).
Entre os que leem a Bíblia uma vez por mês, 84% foram reprovados. Entre os que raramente ou nunca leem, 91%. A frequência ao culto também pesa, mas menos.

Gráfico 4. Nota média (0 a 100) por frequência ao culto. A aprovação começa em 60. Fonte: Earls (2026).
Nem quem vai ao culto toda semana alcança a média de aprovação. A análise de regressão do estudo reforça o ponto. Ler a Bíblia diariamente acrescenta 13,8 pontos à nota esperada, o maior efeito encontrado, à frente de ter pós-graduação (10,7 pontos). Ler algumas vezes por semana soma 7,7. Raramente ou nunca ler tira 6,2.
Há também um dado sobre motivação. Quem diz ler a Bíblia para conhecer a Deus e se relacionar com Ele tende a ter nota 5,4 pontos maior, mesmo controlando os outros fatores.
Um detalhe de comparação: em fevereiro, outro estudo da Lifeway, só com protestantes, encontrou 31% de leitores diários. Neste estudo, que inclui católicos e ortodoxos, o número é 21%. Os dois não se contradizem, porque medem populações diferentes.
04 O púlpito carrega peso demais
Quando perguntados como aprendem a Bíblia numa semana comum, 56% citaram o sermão do pastor. Esse é o canal mais mencionado, à frente de material devocional (38%), leitura corrida de capítulos (30%) e estudo de versículos por tema (30%). Só 28% estudam passagens versículo por versículo, e 9% não fazem nenhuma das atividades listadas.
O sermão é essencial, mas é um formato limitado para formar visão do conjunto. Ele costuma tratar uma passagem por vez, num tempo curto, e nem sempre mostra como aquele trecho se encaixa na história maior da Bíblia. É justamente nessa visão do conjunto (ordem dos eventos, divisões dos livros, ligação entre Antigo e Novo Testamento) que o quiz encontrou as notas mais baixas. McConnell aponta nessa direção ao dizer que a igreja precisa ajudar as pessoas a entender tanto cada passagem quanto a narrativa geral em que elas se encaixam.
05 O que os números não dizem
Alguns cuidados antes de tirar conclusões. O estudo é americano e foi feito por painel online. Ele mede memória de conteúdo, e não mede fé, caráter, obediência ou maturidade espiritual. Uma pessoa pode errar a ordem de Débora e Ester e viver com profunda fidelidade ao que entende das Escrituras. O inverso também acontece.
Mesmo assim, o dado tem peso. Em outro estudo publicado em fevereiro, McConnell observou que a Bíblia não pode ter autoridade plena na vida de quem não sabe o que ela diz. Para a tradição protestante, que afirma as Escrituras como regra de fé e prática, desconhecer o conteúdo bíblico enfraquece a própria base da identidade da igreja.
06 E a igreja brasileira?
Não existe, até onde conseguimos verificar, um teste de conhecimento bíblico aplicado a uma amostra nacional de evangélicos brasileiros. Temos dados sobre hábito declarado, e eles apontam para um quadro diferente do americano.
A Pesquisa Evangélica Nacional 2026, do Instituto Valentes Intel, ouviu 14.933 evangélicos nas 27 unidades da federação. Segundo os resultados divulgados, 50,4% disseram ler a Bíblia todos os dias, 85,1% oram diariamente e 85,5% vão ao culto pelo menos uma vez por semana. A Bíblia impressa é a preferida de 68%, contra 25,5% que usam aplicativos.

Gráfico 5. Percentual que declara ler a Bíblia todos os dias. Populações e métodos diferentes; ver ressalvas no texto. Fontes: Valentes Intel (2026); Earls (2026).
A comparação direta exige cautela. A pesquisa brasileira ouviu só evangélicos, enquanto a americana incluiu católicos. O questionário brasileiro foi online, com participação voluntária, e depois ponderado com base no Censo 2022 e na PNAD. Esse tipo de amostra tende a atrair os mais engajados, mesmo com a ponderação. E nos dois países o número é declarado, não observado.
O quadro mais amplo confirma o lugar central da Bíblia na sociedade. Na sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, ela continua sendo o livro mais lido do país, citada por 38% dos entrevistados. No levantamento Religião e Vida Pública no Brasil, do ISER com a Quaest, 73% dos brasileiros disseram ter a Bíblia ou seus versículos como fonte de ensinamentos para a vida. O pastor e teólogo Kenner Terra, comentando esse número, observou que a pergunta relevante deixa de ser se o Brasil lê a Bíblia e passa a ser como o Brasil a lê.
O estudo americano sugere que ler com frequência é o melhor preditor de conhecimento. Se a leitura declarada no Brasil for real, seria razoável esperar notas melhores que as americanas. Mas isso é uma hipótese, e há motivos para não presumir o resultado:
- O culto evangélico brasileiro costuma girar em torno da pregação, o que reproduz, e talvez amplie, a dependência do púlpito vista nos Estados Unidos.
- O crescimento rápido das igrejas evangélicas nas últimas décadas nem sempre veio acompanhado de estruturas de ensino sistemático. Em muitas comunidades, a Escola Bíblica Sabatina ou Dominical perdeu espaço.
- A circulação de versículos isolados em redes sociais, campanhas e discursos públicos favorece o reconhecimento de frases soltas, que é justamente a habilidade em que os americanos foram melhor, e não a visão do conjunto, em que foram pior.
- Ler todos os dias um devocional curto ou um versículo do aplicativo pode ser registrado como “leitura diária”, sem que a pessoa percorra livros inteiros.
Sem uma medição equivalente, qualquer afirmação sobre o nível de conhecimento bíblico dos evangélicos brasileiros continua no campo da suposição, seja ela otimista ou pessimista.
07 Perguntas para quem lidera
1 O que a sua igreja sabe sobre si mesma?
A principal contribuição do estudo foi trocar impressão por medida. Uma igreja local pode fazer o mesmo, com um questionário simples e anônimo, para descobrir onde estão as lacunas antes de planejar o ensino.
2 Quem ensina a história inteira?
As maiores falhas estão na ordem dos eventos e na estrutura da Bíblia. Séries de pregação, classes de estudo ou planos de leitura que percorram a Bíblia como uma narrativa contínua atacam diretamente esse ponto.
3 O sermão está sozinho?
Se mais da metade aprende a Bíblia principalmente pela pregação, o domingo carrega um peso que não consegue sustentar. Grupos pequenos, estudo em família e leitura pessoal orientada distribuem esse peso.
4 Por que ler?
A nota sobe quando a motivação é relacional. Campanhas de leitura que só cobram disciplina tendem a durar pouco. Mostrar a leitura como encontro com Deus parece sustentar o hábito e, de quebra, o conhecimento.
5 Quem vai fazer a prova no Brasil?
Denominações, seminários e institutos de pesquisa brasileiros têm condições de aplicar um teste semelhante a uma amostra nacional. O resultado ajudaria a igreja a planejar discipulado com base em dados, e não em suposições.
A Lifeway disponibilizou o quiz, em inglês, para quem quiser testar o próprio conhecimento: research.lifeway.com/qsm_quiz/lifeway-research-bible-literacy-quiz
Referências
EARLS, Aaron. 2 in 3 churchgoers fail Bible literacy quiz. Lifeway Research, Brentwood, 3 nov. 2026. Disponível em: https://research.lifeway.com/2026/11/03/2-in-3-churchgoers-fail-bible-literacy-quiz/. Acesso em: 4 nov. 2026.
EARLS, Aaron. Fewer than 1 in 3 churchgoers read the Bible daily. Lifeway Research, Brentwood, 10 fev. 2026. Disponível em: https://research.lifeway.com/2026/02/10/fewer-than-1-in-3-churchgoers-read-the-bible-daily/. Acesso em: 4 nov. 2026.
LIFEWAY RESEARCH. Churchgoers increasingly reject some biblical truths, according to Lifeway Research. Lifeway Newsroom, Brentwood, 22 set. 2026. Disponível em: https://news.lifeway.com/2026/09/22/churchgoers-increasingly-reject-some-biblical-truths-according-to-lifeway-research/. Acesso em: 4 nov. 2026.
METADE dos evangélicos lê a Bíblia diariamente, revela pesquisa nacional. Folha Gospel, [S. l.], set. 2026. Disponível em: https://folhagospel.com/levantamento-nacional-mapeia-habitos-de-fe-e-rotina-dos-evangelicos-no-brasil/. Acesso em: 4 nov. 2026. [Dados da Pesquisa Evangélica Nacional 2026, do Instituto Valentes Intel, citados conforme divulgação na imprensa; relatório primário não consultado.]
AZEVEDO, Roberto. Pesquisa Evangélica Nacional 2026 aponta diferenças geracionais na política e preferência pela Bíblia impressa. Cristão+, [S. l.], set. 2026. Disponível em: https://cristaomais.com/pesquisa-evangelica-nacional-2026-aponta-diferencas-geracionais-na-politica-e-preferencia-pela-biblia-impressa/. Acesso em: 4 nov. 2026.
BÍBLIA segue como o livro mais lido no Brasil, mostra pesquisa. Revista Oeste, [S. l.], 2024. Disponível em: https://www.revistaoeste.com/brasil/biblia-segue-como-o-livro-mais-lido-no-brasil-mostra-pesquisa/. Acesso em: 4 nov. 2026. [Dados da 6.ª edição de Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, citados conforme divulgação na imprensa.]
TERRA, Kenner. A leitura bíblica pode mudar o Brasil. Essa frase não é exagero. A Gazeta, Vitória, 2026. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/artigos/a-leitura-biblica-pode-mudar-o-brasil-essa-frase-nao-e-exagero-1026. Acesso em: 4 nov. 2026. [Fonte secundária para o dado de 73% da pesquisa ISER/Quaest.]



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