O que as 100 maiores igrejas metodistas dos Estados Unidos ensinam sobre membresia, transmissão online e batismo
Imagine uma igreja com 3.526 nomes no rol de membros. No domingo, 594 pessoas estão no templo e outras 372 acompanham pela internet. Ao longo de um ano inteiro, ela batiza 16 crianças e 5 adultos.
Essa igreja não existe. Ela é a mediana das 100 maiores congregações da Igreja Metodista Unida (UMC) nos Estados Unidos, calculada pelo cientista político Ryan Burge a partir dos dados oficiais da denominação. E o comentário dele sobre o retrato é seco: um pastor que faz mais funerais do que casamentos está liderando uma congregação que vai encolher.
O artigo de Burge, publicado em 8 de outubro de 2026 na newsletter Graphs About Religion, trata de uma denominação americana em declínio. Mas os números tocam em três perguntas que qualquer liderança brasileira deveria fazer sobre a própria igreja: quem de fato está aqui, quem está do outro lado da tela e quem está chegando pela porta da frente.
O que Burge analisou
Burge partiu de uma tabela pública da própria UMC, “Largest 100 Churches by Membership”, hospedada no portal UMData.org. Para cada igreja, ela informa membros professos, frequência média presencial, frequência online e batismos de crianças e adultos no último ano.
A escolha já diz algo. Igrejas metodistas gigantes são raras: no ranking Outreach 100 das maiores igrejas americanas, metade se declara não denominacional, 15% são batistas do Sul e os metodistas somam 1,8%. A maior da lista é a Highland Park, em Dallas, com 15.240 membros. A segunda é a Resurrection, em Leawood (Kansas), com 13.419, pastoreada por Adam Hamilton.
A geografia também chama atenção. O Texas concentra 26 das 100 igrejas e a Geórgia 17, todas perto de Atlanta. As grandes congregações metodistas estão no Cinturão Bíblico e nas regiões metropolitanas, quase nada no Norte, no Oeste ou na zona rural.
O pano de fundo é de encolhimento. Segundo Burge, a UMC passava de 10 milhões de membros em 1968 e hoje tem menos de 4 milhões. Parte da queda recente vem do cisma sobre sexualidade: entre 2019 e 2023, 7.631 igrejas, cerca de um quarto das congregações americanas, se desfiliaram da denominação, segundo o Lewis Center for Church Excellence (WEEMS, 2024). As 100 igrejas da lista são as que ficaram.
O rol inchado
Na igreja mediana da lista, a frequência presencial equivale a cerca de 17% dos membros registrados: 594 pessoas para 3.526 nomes. Somando quem assiste online, a proporção sobe para algo perto de um quarto, mas a conta só é aproximada porque medianas não se somam com precisão.

Fonte: Burge (2026), com dados de UMData.org · medianas das 100 maiores igrejas metodistas por membresia
No gráfico de dispersão de Burge, a maioria das igrejas forma uma faixa achatada na parte de baixo: muitos membros, pouca gente no culto. Ele resume o padrão assim: esse é o retrato da igreja mediana da lista, “um rol de membros muito inchado”. São nomes de pessoas que mudaram de cidade, de igreja ou de fé, ou que morreram, e que continuam contando como membros.
Uma observação de método: Burge escreve que a frequência total corresponde a cerca de 18% da membresia, mas o número que ele usa (600 de 3.500) é só o presencial. Preferimos falar em 17% presencial para não misturar as duas contas.
A igreja do outro lado da tela
Nas 100 maiores igrejas metodistas, 40% de quem é contado como frequentador não está no templo. Em 27 delas, a maioria do público é virtual. No outro extremo, 15 igrejas têm menos de 20% de frequência online.
Os casos extremos mostram o tamanho do problema de medição. A Pulaski Heights, em Little Rock (Arkansas), tem 4.636 membros e informa uma frequência média de mais de 40 mil pessoas por fim de semana: 602 no templo e mais de 39 mil online. Burge suspeita de erro de contabilidade. Ele foi ao canal da igreja no YouTube e encontrou apenas alguns vídeos com mais de mil visualizações. A St. Luke “Community”, no Texas, declara 600 pessoas presenciais e 11.621 online.
Há também o erro no sentido contrário. A Windsor Village, em Houston, com quase 9.500 membros e 1.055 frequentadores, aparece com zero pessoas online e zero batismos no ano, o que Burge considera improvável.
O contraponto é a Resurrection, de Adam Hamilton. São cerca de 13.400 membros, pouco mais de 10 mil pessoas no culto presencial e cerca de 12 mil online. Burge considera os números plausíveis para uma igreja desse porte. É também a igreja com a melhor taxa de batismos da lista, o que derruba qualquer leitura apressada de que a transmissão, por si só, esvazia a igreja.

Fonte: Burge (2026), dados de UMData.org. Cruzamento nosso. Parcela online da Resurrection estimada (cerca de 12 mil online e 10 mil presenciais); da Church of the Servant, 325 de 621.
O cruzamento acima é nosso, não de Burge. Com igrejas de público online parecido, entre 50% e 80%, os batismos vão de quase zero a 26 por mil membros.
Batismos: o indicador que não mente
Nas 100 igrejas, Burge contou 6,5 batismos para cada mil membros. Ele traduz assim: numa igreja metodista de 2.500 membros, espera-se um batismo a cada três semanas, ou cerca de 16 por ano. E não há chance de uma igreja desse tamanho fazer menos de 16 funerais por ano. A conta não fecha, e por isso ele conclui que essas igrejas vão encolher, inclusive as maiores.
A distribuição é muito desigual. A Resurrection faz 25,9 batismos por mil membros e a Highland Park, 19,3. As duas, que também são as maiores em membresia, respondem por cerca de 20% de todos os batismos das 100 igrejas. Burge chama isso de “uma versão extrema do princípio de Pareto”.
Na ponta de baixo, a Church of the Servant, em Oklahoma City, tem mais de 7.200 membros, 296 pessoas no culto presencial e 325 online, e batizou um adulto e uma criança no ano. A Cannon UMC, em Snellville (Geórgia), tem 3.500 membros, 154 frequentadores presenciais e batizou uma criança.
Os batismos de crianças pesam mais do que parece. Na mediana, são 16 de 21 batismos anuais. Numa tradição que batiza bebês, esse número acompanha quantas famílias jovens estão na igreja. Quando ele é baixo, a igreja está envelhecendo.
Lições para a liderança brasileira
Burge escreve sobre uma denominação americana e não tira conclusões para o Brasil. As lições abaixo são leitura nossa, a partir dos dados dele.
1. Visualização não é frequência
Os 39 mil fiéis online da Pulaski Heights parecem, nas palavras de Burge, um erro de contabilidade. Quando cada igreja define “frequência online” do seu jeito, o número vira propaganda. Pode ser pico de audiência na live, reproduções acumuladas na semana ou contas que assistiram três segundos. Antes de comemorar o alcance da transmissão, vale combinar uma definição: por exemplo, dispositivos únicos que assistiram a pelo menos metade do culto, e separar isso de alcance, curtidas e compartilhamentos.
2. A transmissão precisa levar a algum lugar
A Resurrection tem mais gente online do que presencial e lidera a lista em batismos. A Church of the Servant também tem metade do público online e batizou um adulto no ano. O que muda de uma para outra não é a câmera. A pergunta útil para um pastor é o que acontece depois que alguém assiste: há um convite claro para um pequeno grupo, um estudo bíblico, uma conversa com alguém da igreja, um caminho até o batismo? Sem esse caminho, a transmissão vira programa de TV.
3. O rol de membros precisa de revisão pastoral
Uma igreja com 3.500 nomes e 600 pessoas no culto não sabe quem são os outros 2.900. No Brasil, onde muitos números de membresia são autodeclarados e não auditados, o risco é o mesmo. Revisar o rol não precisa ser uma limpeza burocrática. Pode começar por uma visita ou uma mensagem a cada nome que sumiu, e só depois decidir o que fazer com o registro.
4. Quem entra diz mais do que quem está inscrito
O indicador que Burge usa para prever o futuro é simples: batismos por mil membros. Igrejas brasileiras podem acompanhar o mesmo número, separando filhos de membros e pessoas que chegaram de fora. Se a igreja online contribui para essa conta, é possível saber. Basta perguntar a cada batizando como chegou.
5. Mais funerais que casamentos é um sinal demográfico
A frase de Burge fala de idade, não só de evangelismo. Uma congregação que envelhece enterra mais membros do que recebe. Num país em que a fecundidade já está abaixo do nível de reposição, a igreja que não alcança jovens e casais vai sentir isso antes nos funerais do que nas estatísticas.
6. Tamanho não é saúde
As maiores igrejas da lista são maiores no papel. Duas delas fazem 20% dos batismos de todas as 100. Para quem lidera uma associação, um campo ou uma convenção, a pergunta não é qual igreja tem mais membros, mas onde as pessoas estão chegando e o que essas igrejas fazem de diferente.
O que os dados não permitem dizer
Os números são informados pelas próprias igrejas à denominação e não passam por auditoria. Os casos da Pulaski Heights e da Windsor Village mostram que há erros nos dois sentidos, e Burge os aponta sem corrigi-los.
A lista reúne as maiores igrejas por membresia, não as maiores por frequência nem as que mais crescem. Uma igreja metodista com 2 mil pessoas no culto e um rol enxuto pode não aparecer nela. Também são dados de um único ano, sem série histórica.
Burge não testa se a proporção de público online tem relação com batismos. Os exemplos citados aqui (Resurrection, Church of the Servant) servem para mostrar que as duas coisas podem andar separadas, não para provar uma regra. E os batismos metodistas incluem crianças pequenas, o que não é comparável diretamente com igrejas que batizam só por profissão de fé.
Referências
BURGE, Ryan P. What can we learn from the 100 largest United Methodist churches? Graphs About Religion, [s. l.], 8 out. 2026. Disponível em: https://www.graphsaboutreligion.com/p/what-can-we-learn-from-the-100-largest. Acesso em: 8 out. 2026.
WEEMS JR., Lovett H. Twenty-five percent of churches disaffiliated from the United Methodist Church. UM Insight, [s. l.], 16 jan. 2024. Disponível em: https://um-insight.net/in-the-church/umc-future/twenty-five-percent-of-churches-disaffiliated-from-the-unite/. Acesso em: 8 out. 2026.
Fonte primária dos dados: tabela “Largest 100 Churches by Membership”, UMData.org, Igreja Metodista Unida. Citada a partir de Burge; não consultada diretamente.



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