Procuramos o que pesquisas realizadas nos últimos cinco anos dizem sobre por que as pessoas, especialmente os mais jovens, abandonam a fé. Ao contrário do que muitos pensavam, o motivo mais citado não é a universidade, nem a cultura, nem a internet. É na infância que isso é decidido.
01 — A PERGUNTA
Onde ficam, de fato, os cemitérios
A expressão “cemitérios da fé” ganhou o púlpito brasileiro apontando para as universidades públicas. Essa acusação específica não tem estudo que a sustente. Mas a metáfora tem valor se apontada na direção certa: existem, sim, lugares e mecanismos onde a fé morre. A pergunta é onde eles ficam.
Aqui a evidência é abundante e recente. O Pew Research Center entrevistou cerca de 80 mil pessoas em 36 países entre janeiro e maio de 2024 para mapear a troca de religião, e voltou a campo em maio de 2025 com 8.937 americanos para perguntar diretamente por quê. O PRRI ouviu 5.600 adultos em 2023. O projeto The Great Dechurching fez o maior levantamento já conduzido sobre quem parou de frequentar igreja nos EUA. Na Alemanha, um estudo nacional entrevistou 1.500 ex-membros das igrejas católica e protestante.
E há uma fonte que costuma passar despercebida fora do meio: as próprias denominações medem isso. A Igreja Adventista do Sétimo Dia apresentou, em maio de 2025, um levantamento sul-americano com 1.387 respostas de pessoas que saíram e voltaram, dado raro, porque quase toda pesquisa sobre evasão ouve apenas quem foi embora. Voltaremos a ele na seção 07, porque é ali que estão as pistas mais práticas.
02 — OS FATORES
O que leva alguém a sair
Os percentuais abaixo vêm do estudo do PRRI (Public Religion Research Institute)[1], entre os americanos que deixaram a religião em que foram criados. Cada linha indica quantos citaram aquele fator como razão extremamente ou muito importante, e se ele está dentro do raio de ação de uma igreja local.
| FATOR PREDOMINANTEMENTE EXTERNO Parou de acreditar nos ensinos O motivo nº 1 em toda pesquisa que consultamos. No PRRI, com formulação um pouco diferente, chega a 67%. Entre os que saíram e viraram “sem religião”, 51%. | 46% |
| DENTRO DO ALCANCE DA IGREJA Não era importante na minha vida Irrelevância prática. A fé não deixou de ser verdadeira para essa pessoa, mas deixou de fazer diferença. | 38% |
| DENTRO DO ALCANCE DA IGREJA Fui me afastando aos poucos A saída silenciosa. Ninguém rompeu, ninguém brigou, ninguém avisou. | 38% |
| DENTRO DO ALCANCE DA IGREJA Ensinos sobre temas sociais e políticos O fator que mais cresce. No PRRI, os ensinos sobre sexualidade saltaram de 29% em 2016 para 47% em 2023 e chegam a cerca de 60% entre os que saíram com menos de 30 anos. | 34% |
| DENTRO DO ALCANCE DA IGREJA Escândalos envolvendo líderes religiosos Entre ex-católicos, 39%. No PRRI, subiu de 19% para 31% em sete anos. | 32% |
Um sexto fator, medido separadamente
O estudo Great Dechurching[2] foi mais granular sobre política e encontrou algo que o debate público costuma exagerar: 18% saíram por divergência política com a congregação e 16% por divergência com o próprio pastor. É real, é mensurável e é bem menor que a descrença doutrinária.
O mesmo estudo trouxe o achado mais desconcertante de todos: para a maioria dos que pararam de frequentar, o motivo foi banal. Mudou de endereço. O horário ficou inconveniente. A configuração familiar mudou.
O estudo alemão com 1.500 ex-membros chegou a conclusão parecida, raramente houve um motivo concreto; o afastamento se parece com um processo, não com um rompimento.
A maior parte das pessoas não sai batendo a porta. Sai porque ninguém percebeu que ela parou de vir.
03 — O PREDITOR
O número que deveria pautar a próxima reunião de liderança
O Pew[3] não perguntou apenas os motivos declarados. Cruzou a permanência adulta com a qualidade da experiência religiosa na infância. O resultado é o dado mais forte deste levantamento.
| 84% dos que tiveram experiência majoritariamente POSITIVA com religião na infância seguem na mesma fé hoje. Apenas 10% viraram “sem religião”. | 24% dos que tiveram experiência majoritariamente NEGATIVA seguem na mesma fé. 69% hoje não têm religião nenhuma. |
Sessenta pontos percentuais de diferença. Nenhuma outra variável do estudo nem escolaridade, nem partido político, nem renda, nem geografia chega perto desse poder preditivo.
A intensidade religiosa do lar reforça o mesmo eixo: 82% de retenção entre quem cresceu em casas muito religiosas, contra 47% entre quem cresceu em casas pouco religiosas. E o PRRI encontra 41% dos desafiliados dizendo que a família nunca foi muito religiosa dez pontos a mais que em 2016.
Traduzindo para o vocabulário da igreja local: o ministério infantil e a mesa de jantar da família cristã são as variáveis de maior alavancagem que existem. Não a apologética universitária. Não a defesa cultural. O que acontece com uma criança de nove anos numa sala de aula da igreja pode pesar mais, estatisticamente, do que tudo o que ela vai ouvir aos vinte.
04 — A JANELA
Quando as pessoas saem
Se o fator decisivo é a infância, faz sentido que a saída também seja precoce. É exatamente o que o Pew encontrou ao perguntar em que idade a troca aconteceu.
| ATÉ 17 | 46% de todas as trocas de religião acontecem ainda na infância ou adolescência. |
| ATÉ 29 | 85% de todas as trocas já ocorreram. Isso vale inclusive para os entrevistados com 65 anos ou mais. |
| RECORTE | Entre os que saíram da fé para nenhuma religião, 53% já tinham saído antes dos 18. Outros 36% saíram antes dos 30. |
Repare no que esse recorte significa. A perda total da filiação, o cenário que mais assusta a liderança, é o tipo de saída que acontece mais cedo, não mais tarde. Metade já tinha se consumado antes da maioridade.
Isso conversa diretamente com o dado brasileiro: um levantamento da Unifesp em parceria com a USP, divulgado em abril de 2026, mostrou que a proporção de adolescentes de 14 a 17 anos sem religião passou de 14,3% em 2012 para 20,3% em 2023.
Quando a igreja se dá conta de que “perdeu o jovem na faculdade”, na maioria dos casos ela o perdeu no ensino fundamental e só recebeu a notificação com atraso.
05 — O QUE MUDOU
Sete anos de deslocamento
Comparar as ondas de 2016 e 2023 do PRRI mostra quais motivos ganharam peso.
| MOTIVO DECLARADO PARA A DESAFILIAÇÃO | 2016 | 2023 |
| Ensinos negativos sobre pessoas LGBT | 29% | 47% |
| Família nunca foi muito religiosa | 32% | 41% |
| Escândalos de abuso sexual por clero | 19% | 31% |
| Congregação focada demais em política | 16% | 20% |
| Saúde mental própria | — | 32% |
Três observações sobre essa tabela.
- A saúde mental é uma variável nova. Não aparecia nas ondas anteriores e já entra em 32%. Vale investigação própria.
- O abuso clerical não é apenas um dado de opinião. Na Suíça, a saída formal de fiéis bateu recorde em 2023, com 67.487 pessoas, ligada à crise de abusos que atingiu a Igreja no país.
- A política cresce, mas menos do que se supõe. Vinte por cento é relevante e está subindo. Não é, porém, o motor principal e tratá-lo como se fosse desvia atenção dos 46% que simplesmente pararam de acreditar.
E os que já estão fora?
Quando o Pew pergunta aos “sem religião” por que não se filiam, pergunta diferente de por que saíram, a resposta muda de natureza. Não é mágoa. É suficiência.
78% dizem que é possível ser moral sem religião. 64% questionam muitos ensinos religiosos. 54% não precisam de religião para serem espirituais. Cerca de metade cita não gostar de organizações religiosas (50%) ou não confiar em líderes religiosos (49%).
Duas dessas quatro respostas são sobre a instituição, não sobre Deus. É o mesmo padrão que o Barna identifica nos EUA há anos: quase quatro em cada dez pessoas que não frequentam igreja citam experiências negativas anteriores com igrejas ou com pessoas de igreja.
06 — BRASIL
Os desigrejados
O Brasil aparece no levantamento global do Pew com 21% dos adultos já não se identificando com a religião em que foram criados, bem abaixo da Coreia do Sul (50%), dos Países Baixos (36%) e dos Estados Unidos (28%). Não somos um caso extremo de desafiliação.
Mas temos um recorte próprio, e ele não é de descrença é de desinstitucionalização. Dados do Datafolha divulgados pela Missão Sepal em 2024 mostram que 6,9% dos evangélicos brasileiros não frequentam nenhuma igreja. Em São Paulo, o índice sobe para 14,2%. Em números absolutos, algo entre quatro e cinco milhões de pessoas.
O perfil: majoritariamente homens (10,7% contra 5,8% entre as mulheres) e jovens 12,5% na faixa de 16 a 24 anos e 12,1% de 25 a 34. A faixa com menos afastados é a de 45 a 59.
A literatura brasileira costuma dividir o grupo em três tipos, e a distinção importa para qualquer estratégia de reaproximação:
- Os decepcionados — saíram da comunidade por motivos variados, mas não desejam o fim da igreja institucional. É o maior grupo e o mais recuperável.
- Os radicais — defendem o fechamento dos templos. Rompimento ideológico, não apenas afetivo.
- Os consumidores — usam algumas atividades congregacionais, mas recusam compromisso de membresia e comunhão.
Tratar os três como um bloco único e responder a todos com o mesmo apelo emocional para “voltar” é provavelmente o erro pastoral mais comum diante desse fenômeno.
07 — DENTRO DE UMA DENOMINAÇÃO
A pesquisa que ouviu quem voltou
Quase todo estudo sobre evasão religiosa tem o mesmo ponto cego: ouve quem foi embora. Ninguém pergunta ao caminho de volta. A sede Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia fez exatamente isso e apresentou os resultados em maio de 2025, um dos poucos levantamentos disponíveis sobre o tema em português e com recorte sul-americano.
| FICHA DO ESTUDO AMOSTRA · 1.387 respostas válidas de membros adventistas de oito países da América do Sul CRITÉRIO · 100% são pessoas que deixaram de frequentar a igreja e retornaram PERFIL · 16% saíram mais de uma vez · 67% não nasceram em lar adventista LIMITE · não representa quem saiu e permaneceu fora |
Por que saíram
A pesquisa agrupou os motivos em três blocos. Entre os que consideraram que o fator aconteceu e teve muita influência:
| FATOR DE SAÍDA | PESO |
| Luta pessoal e espiritual interna (relacionamentos amorosos, pecados acariciados, cônjuge que não compartilha a mesma fé) | 24,46% |
| Conflitos e experiências ruins na comunidade | 16,07% |
| Conflitos internos sobre doutrinas e seus desafios | 8,34% |
Guarde essa proporção: a luta pessoal pesa quase três vezes mais que a dúvida doutrinária. É o mesmo desenho que apareceu no estudo longitudinal americano. O que previa o declínio religioso na juventude não era o conteúdo das aulas da faculdade, mas coabitação, álcool e vida afetiva. Duas pesquisas independentes, tradições diferentes, mesma conclusão: a fé dos jovens costuma se perder na biografia, não no debate de ideias.
O segundo bloco também importa. Dezesseis por cento é gente que saiu por causa de conflito com outras pessoas da igreja o dado que conversa diretamente com os 84% contra 24% da seção 03.
Por que voltaram
Aqui está a parte que quase não existe em outras pesquisas. Perguntados sobre o que motivou o retorno, 62,82% das respostas apontaram fatores internos: desejo de recomeçar, necessidade de reconexão com Deus, vazio espiritual, resposta a uma oração pessoal. Os fatores externos como lembrança de hinos, um sermão assistido, insistência de pessoas próximas somaram 24,68%.
Isso exige uma leitura honesta, e ela é de duas mãos. Por um lado, a igreja não fabrica o retorno: a maior parte do movimento nasce dentro da pessoa, num tempo que não é o da programação institucional. Por outro, quando a pessoa se move, ela precisa encontrar uma porta aberta e é aí que a igreja local decide se o retorno se consuma ou se evapora.
O que a igreja local fez que funcionou
Perguntados sobre o que a congregação fez que contribuiu muito para o retorno:
| AÇÃO DA IGREJA LOCAL | CITAÇÕES |
| Acolhimento pelos membros da igreja | 52,9% |
| Acolhimento pelos líderes da igreja | 45,9% |
| Momentos de confraternização promovidos | 38,7% |
| Convites para programas especiais | 37,6% |
As quatro respostas são relacionais. E o acolhimento pelos membros comuns pesou mais que o acolhimento pela liderança.
A mesma pesquisa levantou o que precisa melhorar, na opinião de quem voltou: esforços para reencontrar e resgatar membros afastados, atenção pastoral continuada, oportunidades reais de participação na igreja local e criação de espaços de socialização.
O tamanho do problema entre os jovens
Vale registrar o contexto demográfico da própria denominação, porque ele dá escala ao restante. Em dados de 2017 apresentados pela Secretaria Executiva sul-americana, 54,9% das pessoas que deixaram de ser membros tinham entre 13 e 30 anos, enquanto crianças de até 12 anos representavam apenas 2,8% das saídas. E, em 2025, a liderança registrou que a faixa de 18 a 30 anos caiu de 28,1% para 25,6% do total de membros em cinco anos.
A adolescência e o início da vida adulta concentram a evasão. A infância, não. O que a infância faz é determinar com que estrutura a pessoa chega nessa faixa que é precisamente o que a seção 03 mediu.
08 — CONTRAPONTO
Não é colapso linear
Um levantamento honesto precisa registrar o que contraria a narrativa de queda contínua. E há bastante.
Nos Estados Unidos, o Pew registrou que a queda do cristianismo desacelerou e pode ter estabilizado, com os “sem religião” em 29% da população adulta após um longo período de crescimento. Na Alemanha, o caso mais dramático da Europa, as saídas formais da Igreja Católica caíram de um pico de 522.821 em 2022 para 402.694 em 2023, e continuaram caindo em 2024 e 2025.
E a retenção segue altíssima em boa parte do mundo. Entre os 36 países pesquisados pelo Pew, Filipinas, Hungria e Nigéria estão entre aqueles em que quase todos os criados como cristãos permanecem cristãos. Índia, Israel e Turquia registram taxas de troca religiosa abaixo de 10%.
E, como mostrou a pesquisa adventista, sair não é necessariamente definitivo: existe um contingente relevante de pessoas que voltam e 16% delas já tinham voltado mais de uma vez. Evasão não é sinônimo de perda permanente.
A secularização não é destino histórico inevitável. É resultado de condições específicas que variam enormemente entre países e que, em vários lugares, se estabilizaram ou reverteram.
09 — O QUE FAZER
Sete movimentos que os dados sustentam
O que segue não é opinião pastoral. Cada item está ancorado em um número deste levantamento e a base de cada um está declarada, para que a liderança possa discordar do argumento sabendo exatamente de onde ele veio.
| 01 | Trate o ministério infantil como área estratégica, não como serviço de apoio Se a experiência da criança na igreja é o preditor mais forte de permanência adulta que a pesquisa conhece, essa área deveria receber orçamento, formação e as melhores pessoas. BASE · 84% de retenção com experiência positiva na infância contra 24% com experiência negativa (Pew, 2025) |
| 02 | Meça a experiência, não só a presença Igrejas contam frequência. Praticamente nenhuma pergunta se a memória que se está formando é boa. Uma conversa anual e estruturada com adolescentes sobre como eles descreveriam sua infância na igreja produziria o indicador mais preditivo que existe e custa quase nada. BASE · a variável decisiva é a qualidade percebida da experiência, não o volume de atividades (Pew, 2025) |
| 03 | Crie um gatilho para a ausência Trinta e oito por cento saem “aos poucos”, sem aviso. Uma regra simples: três ausências consecutivas geram um contato pessoal, não institucional. E o contato precisa ser de alguém que a pessoa conhece, não uma mensagem da secretaria. BASE · 38% “foram se afastando aos poucos” (Pew) · 52,9% dos que voltaram citaram acolhimento pelos membros (DSA, 2025) |
| 04 | Distribua o acolhimento — não deixe só com a liderança Na pesquisa adventista, o acolhimento pelos membros comuns pesou mais que o acolhimento pelos líderes. Treinar a congregação para receber quem volta rende mais que concentrar a tarefa no pastor. BASE · membros 52,9% contra líderes 45,9% (DSA, 2025) |
| 05 | Programe socialização como estratégia, não como lazer Confraternizações e convites para programas especiais aparecem logo atrás do acolhimento entre os fatores de retorno. O que a agenda da igreja costuma tratar como periférico é justamente o que funciona para reconectar e o que os próprios retornados apontam como área a melhorar. BASE · confraternização 38,7% e convites 37,6% (DSA, 2025) |
| 06 | Prepare a liderança para a biografia, não só para o debate A luta pessoal e afetiva pesa quase três vezes mais que a dúvida doutrinária entre os motivos de saída. Isso sugere realocar tempo de formação: menos apologética de palanque, mais capacidade de acompanhar alguém em crise de relacionamento, culpa ou vazio, sem que a conversa vire tribunal. BASE · luta pessoal e espiritual 24,46% contra doutrina 8,34% (DSA, 2025) |
| 07 | Trate conflito interno e escândalo como risco mensurável Escândalos de liderança já respondem por um terço das saídas nos EUA, com alta de doze pontos em sete anos. Protocolo de proteção, prestação de contas e mediação de conflito não são burocracia: são retenção. BASE · escândalos 32% (Pew) e 31% (PRRI, contra 19% em 2016) |
Uma nota
Nenhuma dessas ações produz o retorno sozinha. Na pesquisa adventista, quase 63% dos retornos foram atribuídos a fatores internos desejo de recomeçar, vazio espiritual, resposta a uma oração. A igreja pode fazer algo, mas não controla esse tempo. Isso é obra do Espírito Santo.
O que ela controla é o que a pessoa encontra quando decide voltar. E é sobre isso, exatamente, que os sete pontos acima tratam.
10 — PERGUNTAS
Para levar à próxima reunião
- 01 Quanto do nosso orçamento e da nossa melhor gente está no ministério infantil, a variável de maior poder preditivo que a pesquisa conhece?
- 02 Uma criança que passa cinco anos na nossa igreja sai com memória majoritariamente positiva ou negativa? Alguém aqui já mediu isso?
- 03 Temos algum mecanismo que perceba quando alguém simplesmente parou de vir? Porque 38% saem exatamente assim devagar, sem aviso.
- 04 Quando alguém volta depois de anos, quem recebe essa pessoa: a liderança ou a congregação? Os dados dizem que a segunda resposta funciona melhor.
- 05 Nossa formação de liderança prepara para acompanhar crise afetiva e culpa ou só para responder objeção intelectual?
- 06 Nossos protocolos de proteção e de prestação de contas financeira existem no papel ou funcionam?
Nenhum desses pontos exige guerra cultural. Todos exigem trabalho interno, lento e pouco fotogênico.
Talvez seja por isso que a metáfora do cemitério tenha sido apontada para fora. É mais fácil imaginar que a fé morre num anfiteatro de universidade federal do que admitir que ela costuma morrer devagar, numa sala de aula da própria igreja, sem que ninguém tenha registrado a data.
A boa notícia é que os mesmos dados que localizam o problema também localizam a saída. Ela é relacional, é local, e cabe inteira dentro do alcance de quem lidera uma congregação.
FONTES E NOTAS METODOLÓGICAS
Pew Research Center. “Why Do Some Americans Leave Their Religion While Others Stay?”, 15 de dezembro de 2025. Survey com 8.937 adultos (American Trends Panel, 5 a 11 de maio de 2025), margem de erro ±1,4 p.p., combinado com o Religious Landscape Study 2023-24 (36.908 adultos).
Pew Research Center. “Around the World, Many People Are Leaving Their Childhood Religions”, 26 de março de 2025. Cerca de 80 mil entrevistados em 36 países; dados não-americanos de 41.503 adultos coletados entre 5 de janeiro e 22 de maio de 2024.
Pew Research Center. “Decline of Christianity in the U.S. Has Slowed, May Have Leveled Off”, fevereiro de 2025.
PRRI. “Religious Change in America”, com base em survey de mais de 5.600 adultos em 2023; comparação com a onda de 2016.
Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Relatório da Secretaria Executiva apresentado na Comissão Diretiva Plenária, maio de 2025; 1.387 respostas válidas de membros de oito países que saíram da igreja e retornaram. Publicado em noticias.adventistas.org.
Secretaria Executiva da Divisão Sul-Americana. Diagnóstico de perfil de entradas e saídas de membros, dados de 2017; e balanço demográfico apresentado em setembro de 2025.
Davis, J.; Graham, M.; Burge, R. The Great Dechurching. Zondervan, 2023. Pesquisa nacional em três fases; define “desigrejado” como quem frequentava ao menos uma vez por mês e passou a frequentar menos de uma vez por ano.
Ahrens, P.-A. Kirchenaustritte seit 2018: Wege und Anlässe. Nomos, 2022. Survey com 1.500 ex-membros das igrejas evangélica e católica na Alemanha.
Datafolha / Missão Sepal, 2024. Perfil dos evangélicos não frequentadores no Brasil.
Unifesp / USP. Levantamento sobre religiosidade de adolescentes brasileiros (2012-2023), divulgado em abril de 2026.
Barna Group. Dados sobre experiências negativas prévias como barreira à frequência.
Instituto Suíço de Sociologia Pastoral (St. Gallen) e Conferência Episcopal Alemã (DBK). Séries de saídas formais, 2021-2025.
Nota de leitura: os percentuais do Pew, do PRRI e da pesquisa adventista referem-se a motivos declarados pelos próprios entrevistados. Motivos declarados não são causas comprovadas, as pessoas racionalizam trajetórias longas em respostas curtas. O cruzamento entre experiência de infância e permanência adulta (seção 03) é mais robusto justamente por não depender de autoexplicação, embora também não estabeleça causalidade: quem sai pode reinterpretar o passado de forma mais negativa.
Nota sobre a pesquisa adventista: a amostra é composta exclusivamente por pessoas que saíram e retornaram. Isso é a força do estudo, quase nenhuma pesquisa acessa esse grupo, e também seu limite: os motivos de saída relatados são os de quem, no fim, voltou. Quem rompeu de forma definitiva pode ter razões sistematicamente diferentes e não está representado ali.
[1] PRRI. “Religious Change in America”, com base em survey de mais de 5.600 adultos em 2023; comparação com a onda de 2016.
[2] Davis, J.; Graham, M.; Burge, R. The Great Dechurching. Zondervan, 2023. Pesquisa nacional em três fases; define “desigrejado” como quem frequentava ao menos uma vez por mês e passou a frequentar menos de uma vez por ano.
[3] Pew Research Center. “Why Do Some Americans Leave Their Religion While Others Stay?”, 15 de dezembro de 2025. Survey com 8.937 adultos (American Trends Panel, 5 a 11 de maio de 2025), margem de erro ±1,4 p.p., combinado com o Religious Landscape Study 2023-24 (36.908 adultos).
Pesquisas internacionais de survey
PEW RESEARCH CENTER. Why do some Americans leave their religion while others stay? Washington, DC, 15 dez. 2025. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2025/12/15/why-do-some-americans-leave-their-religion-while-others-stay/. Acesso em: 25 ago. 2026.
LESAGE, Kirsten; STARR, Kelsey; MINER, William. Around the world, many people are leaving their childhood religions. Washington, DC: Pew Research Center, 26 mar. 2025. DOI 10.58094/xt5h-b241. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2025/03/26/around-the-world-many-people-are-leaving-their-childhood-religions/. Acesso em: 25 ago. 2026.
SMITH, Gregory et al. Decline of Christianity in the U.S. has slowed, may have leveled off. Washington, DC: Pew Research Center, 26 fev. 2025. DOI 10.58094/4kqq-3112. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2025/02/26/decline-of-christianity-in-the-us-has-slowed-may-have-leveled-off/. Acesso em: 25 ago. 2026.
PUBLIC RELIGION RESEARCH INSTITUTE. Religious change in America. Washington, DC: PRRI, mar. 2024. Disponível em: https://prri.org/research/religious-change-in-america/. Acesso em: 25 ago. 2026.
LIFEWAY RESEARCH. Most teenagers drop out of church when they become young adults. Nashville, 15 jan. 2019. Disponível em: https://research.lifeway.com/2019/01/15/most-teenagers-drop-out-of-church-as-young-adults/. Acesso em: 25 ago. 2026.
Literatura acadêmica
UECKER, Jeremy E.; REGNERUS, Mark D.; VAALER, Margaret L. Losing my religion: the social sources of religious decline in early adulthood. Social Forces, Oxford, v. 85, n. 4, p. 1667-1692, jun. 2007.
BERKENBROCK, Volney J.; COSTA, Karen Aquino Rangel da. Jovens evangélicos universitários: a ressignificação da crença e da prática religiosa. Interações: Cultura e Comunidade, Belo Horizonte, v. 13, n. 24, p. 349-370, 2018. Disponível em: https://redalyc.org/journal/3130/313058154013/html/. Acesso em: 25 ago. 2026.
SCHWADEL, Philip. Explaining cross-national variation in the effect of higher education on religiosity. Journal for the Scientific Study of Religion, v. 54, n. 2, p. 402-418, 2015.
Livros
DAVIS, Jim; GRAHAM, Michael; BURGE, Ryan P. The great dechurching: who’s leaving, why are they going, and what will it take to bring them back? Grand Rapids: Zondervan Reflective, 2023.
AHRENS, Petra-Angela. Kirchenaustritte seit 2018: Wege und Anlässe. Baden-Baden: Nomos, 2022.
Fontes denominacionais
IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Divisão Sul-Americana. Pesquisa ouviu pessoas que saíram e voltaram à igreja. Brasília, maio 2025. Disponível em: https://noticias.adventistas.org/pt/pesquisa-ouviu-pessoas-que-sairam-e-voltaram-a-igreja/. Acesso em: 25 ago. 2026.
Fontes brasileiras (contexto do debate)
ANDRADE, Péricles. Os “cemitérios da fé cristã”: quando cursar a universidade pública não é uma maravilha. Religião em Debate, 7 abr. 2026. Disponível em: https://religiaoemdebate.com.br/2026/04/07/os-cemiterios-da-fe-crista-quando-cursar-a-universidade-publica-nao-e-uma-maravilha/. Acesso em: 25 ago. 2026.



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