Baseado em: Zao-Sanders, M. “How People Are Really Using AI in 2026”, Harvard Business Review, 1º jun. 2026 (iniciativa AI in the Wild).
Em junho de 2026, a Harvard Busineass Review publicou a terceira edição do estudo “How People Are Really Using AI”, de Marc Zao-Sanders. A pesquisa, baseada em milhares de relatos reais de usuários ao redor do mundo, ordena os 100 usos mais comuns da inteligência artificial.
O primeiro lugar não é programação. Não é produtividade. Não é marketing.
É terapia e companhia. Pelo segundo ano consecutivo.
Quem trabalha com igreja deveria ler esse ranking com atenção, porque ele funciona como um diagnóstico pastoral involuntário. Posição por posição, o que aparece ali é o inventário das funções que, por séculos, pertenceram à comunidade de fé.
Um ranking de tecnologia que parece uma lista de ministérios

Veja o que ocupa o topo da lista e pergunte: quem cumpria esses papéis há uma geração?
Terapia e companhia está em 1º. Conselhos de relacionamento, em 7º. Conselhos em geral, em 10º. Navegar a vida amorosa, em 17º. Reconciliar conflitos pessoais, em 26º. Um “espaço seguro para perguntar”, em 32º. Criar e orientar os filhos, em 36º. Conversas profundas e significativas, em 61º.
Isso é a descrição do cuidado pastoral. Do aconselhamento. Do discipulado. Da koinonia.
As pessoas não pararam de precisar do que a igreja oferece. Elas mudaram de balcão.
Três entradas do ranking merecem leitura ainda mais cuidadosa por parte de quem lidera comunidades cristãs.
Astrologia e tarô aparecem em 9º lugar. Milhões de pessoas pedem à IA leituras de tarô e interpretações de mapa astral. A fome espiritual não diminuiu; está sendo alimentada em outro lugar, em formato de consumo individual, sem comunidade, sem compromisso e sem verdade revelada. Enquanto isso, “explorar religião” aparece apenas em 62º. Dentro da própria IA, a espiritualidade difusa está vencendo a fé organizada.
“Interagir com entes falecidos” aparece em 86º. O simples fato de essa categoria existir como uso mensurável é um alerta. Pessoas estão usando IA para recriar conversas com quem já morreu. Quando o consolo da esperança não chega pela comunidade, o simulacro ocupa o lugar.
“Encontrar propósito” despencou de 3º para 85º em um ano. Há duas possíveis leituras, e nenhuma é confortável. A otimista: as pessoas descobriram que a máquina não entrega propósito. A pessimista: desistiram de procurar.
Por que a máquina está ganhando
O próprio estudo explica a liderança de terapia e companhia com três atributos: disponibilidade 24 horas, custo zero e ausência de julgamento.

Inverta a frase e você tem uma crítica direta às nossas comunidades.
A igreja tem horário; a dor não tem. O membro em crise às 2h da manhã de uma terça-feira não liga para o pastor. Ele abre o ChatGPT. A presença pastoral, na prática, é um recurso escasso e racionado, e as pesquisas do Barna Group sobre saúde pastoral mostram líderes exaustos, o que só estreita esse gargalo.
O segundo ponto dói mais. “Espaço seguro para perguntar” em 32º lugar significa que muita gente prefere confessar dúvidas, fracassos conjugais e perguntas sobre sexualidade (o tema aparece em 46º no ranking) a uma máquina. Por quê? Porque a máquina não fofoca. Não se escandaliza. Não muda o olhar no próximo culto.
A IA não venceu por ser sábia. Venceu por ser discreta.
Há ainda uma assimetria de arquitetura. A IA escuta milhões de pessoas ao mesmo tempo. O modelo eclesiástico tradicional concentra o cuidado em um profissional por congregação. A igreja não perdeu para uma tecnologia melhor; perdeu para uma estrutura de disponibilidade melhor.
O que a igreja tem que nenhum algoritmo terá
A resposta não é competir com a IA em disponibilidade, isso é impossível. Nem demonizá-la do púlpito, isso é ineficaz e soa desconectado da vida real dos membros, que já a usam todos os dias.
A resposta é reocupar o terreno onde a IA é estruturalmente incapaz.
Um chatbot oferece respostas. Não oferece presença física. Não abraça. Não aparece no hospital. Não divide a mesa. Não carrega o caixão. O próprio estudo da HBR aponta dois riscos crescentes do uso intenso: a dependência emocional da máquina e o que os autores chamam de “thinkslop” a terceirização do pensamento, quando a pessoa aceita raciocínios prontos em vez de pensar por conta própria.
Cedo ou tarde, a relação simulada cobra seu preço em solidão real. Essa conta, quando vencer, é a oportunidade da igreja. Se ela estiver pronta.
Seis correções possíveis
- Distribuir o cuidado: de um pastor para uma rede. A resposta à disponibilidade 24h da IA não é um pastor sem dormir. É o sacerdócio de todos os crentes levado a sério: leigos treinados em escuta e primeiros socorros emocionais, pequenos grupos como unidade primária de cuidado, duplas de discipulado.
- Criar ou ressuscitar o ministério dos enlutados. O 86º lugar do ranking é um chamado direto. Acompanhamento estruturado no primeiro ano após a perda, grupos de enlutados, pregação consistente sobre a esperança da ressurreição (1 Tessalonicenses 4:13-14, NVI: “não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança”). Não podemos deixar esse terreno para um software que imita a voz do falecido.
- Voltar à conversa sobre propósito, casamento e filhos com profundidade real. Conselhos de relacionamento em 7º, vida amorosa em 17º, criação de filhos em 36º. Se esses temas aparecem na igreja apenas como moralismo ou clichê, as pessoas continuarão preferindo a resposta personalizada da máquina. Conteúdo prático, honesto e bíblico sobre casamento, paternidade e conflito disputa exatamente essas posições do ranking no púlpito e nos canais digitais.
- Usar a IA sem terceirizar a presença. A igreja pode usar IA para o que é tarefa: administração, comunicação, organização de dados, apoio ao estudo. Isso libera horas humanas para o que é ministério: visita, escuta, mesa. O erro seria o inverso automatizar o cuidado e manter humanos na burocracia.
- Ensinar a membresia a usar IA com discernimento. Letramento espiritual-digital: o que faz sentido perguntar à máquina, o que pertence à comunidade, e por que a confissão a um algoritmo não substitui a graça mediada por pessoas (Tiago 5:16).
Conclusão
O ranking de 2026 não mostra que as pessoas abandonaram as perguntas da igreja. Mostra que abandonaram a igreja como lugar de fazê-las.
A demanda por escuta, perdão, propósito, consolo e orientação nunca foi tão visível e está medida, ordenada e publicada. O que falta não é interesse espiritual no mundo. É segurança, disponibilidade e profundidade dentro da comunidade de fé.
A pergunta para cada líder que leu até aqui: se um membro da sua igreja estivesse em crise às 2h da manhã, ele saberia a quem recorrer além da IA? Se a resposta é não, o ranking da Harvard Business Review acabou de mostrar onde começa o trabalho.
Fonte: Zao-Sanders, M. “How People Are Really Using AI in 2026”, Harvard Business Review, 1º de junho de 2026, com dados da iniciativa AI in the Wild.



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