Alfa: a geração ansiosa

Os problemas de saúde mental são considerados a nova pandemia da humanidade. Uma em cada seis crianças e adolescentes no mundo são afetados por algum tipo de transtorno mental. No Brasil, dos 69 milhões de pessoas com 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos de transtornos.

Uma em cada quatro crianças e adolescentes, ouvidos em um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), apresentou ansiedade e depressão com níveis clínicos, durante a pandemia – ou seja, com necessidade de intervenção de especialistas.

No entanto, a saúde Mental é mais do que não ter sintomas de depressão ou ansiedade. Para a OMS a saúde mental refere-se a um bem-estar no qual o indivíduo desenvolve suas habilidades pessoais, consegue lidar com os estresses da vida, trabalha de forma produtiva e encontra-se apto a dar sua contribuição para sua comunidade.

Embora todas as gerações vivas no momento (Boomers, X, Y, Z e A) tenham experimentado inesperados desafios durante o Covid 19, são as gerações mais novas, e que ainda estão em fase de formação mental, que tem mostrado maior sinal de agravo na saúde mental.

Saúde mental infantil e a tecnologia

Existem vários motivos para o aumento de transtornos mentais nas crianças: fatores pessoais, situações da família, traumas pessoais do passado etc. Mas, existem outras causas que explicam melhor o tempo em que vivemos: as diferentes pressões que os estudantes enfrentam hoje, o ritmo acelerado das mudanças, a tecnologia e uma maior consciência sobre o tema de saúde mental.

Não se pode colocar toda responsabilidade do problema na tecnologia. Isso seria dizer que toda criança que tem um celular ou tablet sofre de ansiedade. É importante entender que se os filhos forem vulneráveis offline, eles estarão vulneráveis online. A tecnologia pode ser uma consequência e não a causa. Crianças que estão sozinhas, ansiosas ou sofrem de depressão muitas vezes se automedicam com a tecnologia.

O fato de as crianças estarem crescendo em um contexto inteiramente novo significa que elas têm que lidar tanto com os desafios antigos (bullying, amizades e pressões para alcançar resultados), e com os novos (impactos da tecnologia). Em muitos aspectos, os desafios de hoje superam os desafios do passado, gerando novas situações que os mais velhos não conhecem e nunca experimentaram. 

Saúde mental e redes sociais

A tecnologia deveria servir para nos ajudar em várias tarefas, mas como na estória do monstro criado pelo Dr. Frankenstein, ela também pode nos matar.

As redes sociais colocam uma grande pressão sobre as crianças da geração Alfa. Elas gastam muito tempo observando a vida dos influenciadores ou se comparando com os perfis de amigos.

A cultura da comparação e a inabilidade de se desligar das redes sociais, combinadas com outras pressões da vida tem levado muitos a sentirem-se mais isolados e infelizes.

Saúde mental e a pressão acadêmica

Algumas pesquisas apontam que entre as principais preocupações dos adolescentes do ensino médio estão a escola e os problemas de aprendizagem. Pensando no futuro profissional, pais e escolas também estão impondo maior pressão para que eles alcancem cada vez mais melhores resultados acadêmicos.

Mas, isso também está afetando as crianças no ensino básico. Nos últimos cinco anos houve um aumento no volume de crianças que sofrem de ansiedade severa, ou depressão severa.

Tanto os pais quanto os educadores precisam estar conscientes da pressão – intencional ou não – que está sendo exercida sobre essa geração.

Saúde mental e o isolamento social

O Isolamento é uma epidemia em nosso século. Apesar da força das comunidades escolares de hoje, muitas crianças estão experimentando uma sensação de solidão e isolamento.

Para as crianças, a solidão pode afetar seus níveis de cortisol (o hormônio do estresse), sono, autoestima e saúde mental. As causas comuns da solidão nas crianças podem ser causadas por mudanças no estilo de vida, como mudança de casa ou de escola, mudanças na dinâmica familiar, como divórcio ou saída de irmãos de casa, discussões com amigos, intimidação ou morte de alguém que conhecem.

Apesar de seu objetivo de conectar pessoas, a tecnologia, as mídias sociais e os jogos também podem ser um fator que contribui para a solidão.  Uma vez que substituem o uso da interação face a face, podem criar expectativas irrealistas e um sentimento de falta (FOMO).

Saúde mental e as escolas

As escolas estão sofrendo grande pressão quanto a saúde mental dos alunos. Os professores têm notado um considerável aumento do número de casos de saúde mental nas salas de aula. Além disso, muitos pais da geração Alfa esperam que as escolas identifiquem esses casos e cuidem dos seus filhos. Para eles, apenas a excelência acadêmica não é o suficiente para uma boa educação.

O Bullying ainda é um fator de preocupação nas escolas, porém agora muito mais presente de forma imperceptível.  A tecnologia gerou outras formas de bullying que são difíceis de monitorar, como o social bullying (uso de vários meios para prejudicar a reputação social da vítima, cancelamento) e o cyberbulling (publicação de fotos embaraçosas da vítima nas mídias sociais).

As escolas podem pensar em ter profissionais especialistas em saúde mental ou conselheiros para cuidar dos alunos ajudando a identificar algum sinal de transtorno quando os familiares não conseguirem. Mas, é sobre a família que recai a maior responsabilidade.

Como lidar com a tecnologia. Dicas para os pais.

  • Atraso e limite – retardar, tanto quanto possível, a idade em que uma criança recebe seu próprio dispositivo. Se os pais emprestarem seu próprio dispositivo ou um dispositivo familiar à criança, eles serão mais capazes de limitar quando ele for acessado e por quanto tempo.
  • Comunicar valores – os pais precisam ser claros com seus filhos e reforçar consistentemente quais são seus padrões aceitáveis em termos do que eles veem ou acessam e os valores que eles defendem quando interagem com outros. É importante comunicar não apenas o que é aceitável e não aceitável, mas também o porquê.
  • Estratégias comportamentais – ao treinar nossas crianças em como gerenciar o uso de dispositivos, elas serão capazes de implementar táticas para ajudá-las a usar a tecnologia como uma ferramenta de auxílio. Desde as configurações de privacidade até a prudência em torno de grupos e redes sociais, passando pelo controle de tempo e investimento em atividades off-line.
  • Prestação de contas – É importante que os pais se lembrem que quase sem exceção, eles são os titulares de contas na Internet. Eles pagam as contas e compram os dispositivos e, portanto, têm a responsabilidade pelo seu uso. Para alguns, pode ser o monitoramento dos sites visitados e o que é postado pelos filhos nas redes sociais, enquanto para outros, isso envolverá simplesmente conversar com eles para entender como estão indo no uso da tecnologia e das redes sociais.
  • Os pais devem monitorar o tempo dos filhos nos celulares e estabelecer horários para que descansem da tecnologia e pratiquem atividades físicas.

Os pais também podem ajudar, garantindo que o lar seja um lugar seguro e de apoio para seus filhos. Embora isto possa ser difícil devido ao uso de dispositivos digitais (que permitem que o bullying ocorra mesmo enquanto as crianças estão em casa), você pode conversar com seus filhos e informá-los sobre estratégias para combater o bullying. Quase todas as escolas têm uma política de bullying e são obrigadas a lidar com ela uma vez que ela tenha sido levada à atenção da escola. Se seu filho tiver sofrido bullying, você pode conversar com a escola e procurar apoio.

Conclusão

Compreensivelmente, com tantos desafios novos e diferentes enfrentados pela Geração Alfa no século atual, administrar seu bem-estar e ajudá-los a prosperar pode ser um desafio para os pais e responsáveis de hoje.  Entretanto, existem responsabilidades práticas para os pais e educadores, como saber quando procurar conselhos profissionais e outros passos menores e mais regulares que todos nós podemos tomar e que podem fazer uma grande diferença.

Referências:

https://www.camara.leg.br/noticias/774133-uma-a-cada-4-criancas-e-adolescentes-teve-sinais-de-ansiedade-e-depressao-na-pandemia-aponta-estudo

McCrindle, Mark; Ashley Fell. Generation Alpha (p. 92). Hachette Australia. Edição do Kindle.

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