Como as crianças entendem as mídias

Nesse artigo resumo como as crianças de até 12 anos percebem e entendem o que assistem na mídia, como estão sendo saturadas por  conteúdos e como podem ser protegidas. Sinta-se livre para saltar para o tópico que mais lhe interessar.

Diferente das décadas anteriores, as crianças de hoje vivem num mundo saturado de conteúdos e tecnologias que as envolve e bombardeia dia e noite.

A mídia atual é muito diferente da que existia há 20 ou 30 anos. Nos últimos anos vimos o mercado se encher de dispositivos digitais como smartphones, smart tvs, videogames, assistentes virtuais, óculos de realidade virtual, sem contar os inúmeros serviços de streaming para o consumo de vídeos e música.

Surgiram também grandes conglomerados de mídia que reúnem um variado portfólio de negócios visando o público infantil. Essas empresas produzem imensas massas de conteúdo, não para educa-los, mas para obter vantagens comerciais e lucro. Por exemplo, a Disney é dona de vários canais de TV, é produtora de filmes, desenvolve animações e jogos, possui vários sites na Internet, plataforma de streaming de vídeos, tem parque de diversões e etc., sempre visando o público mais jovem.

Imagem: ShutterStock

Crianças e a tecnologia

As crianças estão tendo acesso às tecnologias cada vez mais cedo. Isso ocorre através de brinquedos tecnológicos ou de tecnologias que se tornam brinquedos, como o smartphone. Elas também estão passando mais tempo expostas a essas tecnologias no quarto de dormir, na escola, nos meios de transporte e, até mesmo, nos templos religiosos.

Mas, o avanço da tecnologia não é o único fator. Um estudo realizado em 2010 envolvendo crianças e adolescentes americanos detectou que a realidade socioeconômica e a estrutura familiar estão relacionadas a quantidade de consumo de mídia[1].  Os pais estão cada vez controlando menos o que os filhos consomem na mídia e o tempo que levam nesse tipo de atividade.

Crianças são mais vulneráveis que os adultos

As crianças são mais suscetíveis à influência da mídia que os adultos? Embora exista a teoria do “efeito da terceira pessoa” a qual defende que o indivíduo costuma subestimar o efeito da mídia em si e superestimar nos outros[2], as crianças são de fato mais vulneráveis, e precisamos protegê-las.

As crianças são mais vulneráveis aos efeitos da mídia que os adultos porque estão mais dispostas a aprender. Apesar de ser algo positivo, essa disposição também gera oportunidade para que aprendam coisas negativas.  Uma criança pode aprender que os cangurus vivem na Austrália sem nunca ter viajado até lá. O negativo é que ela pode ter aprendido acessando um site que incentiva a caça ilegal de animais. Isso não significa que a criança deve ser afastada das mídias, mas que é necessário ter maturidade e experiência para saber como assimilar o conteúdo.

As crianças têm menos experiência com o mundo real e tendem a ser menos conhecedoras da intenção, dos meandros e das possíveis distorções da mídia. Elas acreditam mais e respondem mais emocionalmente as mensagens que os adultos. Por exemplo, pesquisas mostram que crianças abaixo dos 12 anos tendem a acreditar mais na veracidade dos anúncios [3].

Crianças são diferentes umas das outras

Os efeitos da mídia sobre as crianças não são os mesmos.  As crianças não são iguais e processam os conteúdos de forma diferente. Isso depende de vários fatores como, idade, desenvolvimento cognitivo, estrutura familiar, personalidade, maturidade emocional, etc. Por exemplo, um mesmo jogo de videogame pode gerar efeitos diferentes em irmãos gêmeos.

Por isso, não é fácil generalizar afirmando que um determinado conteúdo é benéfico ou prejudicial para todas as crianças. Ainda existem outras diferenças reveladas em pesquisas.  Os meninos tendem a ser mais ativos e agressivos e podem mostrar predileção por conteúdos que tenham mais ação. Os tipos de histórias que mais frequentemente perturbam crianças menores de 7 anos envolvem animais ou personagens de aparência distante, como fantasmas e bruxas[4].

Como as crianças interagem com as mídias

Vimos que as crianças consumem e interpretam as mídias diferentemente dos adultos e umas das outras. Porém, há um outro aspecto que também precisa ser considerado:  as crianças processam as informações de maneira diferente ao longo do seu crescimento e desenvolvimento.

Imagem: Shutterstock

1. Bebês

Os conteúdos da mídia são bons para bebés ou são problemáticos? Não existe um consenso sobre isso, mas resultados de algumas pesquisas sugerem que temos de ser cautelosos quanto aos méritos educacionais dos meios de comunicação para os bebês. Observa-se que os bebés têm dificuldade em orientar-se para uma tela e em prestar atenção visual até terem 3 a 6 meses de idade [5]. Várias associações de pediatria e psicologia também não recomendam que crianças abaixo dos dois anos sejam expostas a mídias de tela.

Passar tempo interagindo com membros da família é melhor para os bebês do que ficar em frente a uma tela. De fato, psicólogos do desenvolvimento há muito tempo sustentam que os bebês precisam de ricas interações sociais com os cuidadores para que o desenvolvimento saudável ocorra. Mesmo neste contexto, a mídia de tela pode ser um desafio. Pesquisas mostram que os pais têm menos probabilidade de interagir com seus bebês quando a televisão está ligada [6], e os próprios bebês passam menos tempo brincando com brinquedos quando a televisão está ligada, em comparação com quando ela está desligada[7].

2. Crianças menores (2 a 7 anos)

As crianças mais novas costumam responder a apenas um único estímulo numa cena de desenho ou filme, como o vestido vermelho de um personagem ou a arma brilhante de um herói. A forma de exibição ou o interesse da própria criança é que determinará no que ela vai focar. Outras características, como a cor do cabelo do personagem, nome, tamanho físico e até mesmo certos comportamentos, podem passar despercebidos. Nos desenhos animados, por exemplo, os sentimentos de um personagem são frequentemente transmitidos através das expressões faciais. Crianças menores terão maior probabilidade de se fixar em um ou outro destes conjuntos de sinais e ignorar o enredo.

Crianças entre 2 e 3 anos mostram pouca compreensão da fronteira entre a televisão e o mundo real. De fato, nesta idade, as crianças falam rotineiramente com o aparelho de televisão ou computador e acenam para os personagens.  Por exemplo, um traje brilhante pode chamar mais atenção do que as ações do personagem que está vestindo esta roupa. Naturalmente, eles não irão absorver as lições morais e sociais que o conteúdo está promovendo.

Por volta dos 4 anos de idade, a criança começa a entender a natureza representativa da televisão e das outras tecnologias de telas (celular, tablets), mas ainda tende a assumir que tudo o que parece real é real. Esta interpretação literal foi chamada de perspectiva da “janela mágica”, refletindo a ideia de que crianças pequenas ingenuamente assumem que a tela do dispositivo oferece uma visão de mundo real.

Crianças de 5 anos tipicamente julgam os desenhos animados como não reais porque apresentam eventos e personagens fisicamente impossíveis. Em outras palavras, a criança avalia o conteúdo ao procurar violações gritantes da realidade física. Contudo, um estudo realizado em 2013 mostrou também que as crianças dessa idade estavam dispostas a interagir e responder a um personagem de animação da mesma forma como interagiriam com personagens humanos, enquanto crianças de 7 e 9 anos interagiriam ou responderiam apenas a pessoas [8].

Conforme as crianças amadurecem, elas começam a usar múltiplos critérios para julgar a realidade na mídia. Elas não apenas interpretam as mensagens, mas também levam em conta o gênero do programa, aspectos de produção e até mesmo o objetivo do programa. Mais importante, as crianças mais velhas começam a julgar o conteúdo com base no quanto é semelhante à vida real.

Imagem: ShutterStock

3. Crianças maiores (8 a 12)

Por volta dos 8 ou 9 anos de idade, as crianças mostram melhorias substanciais em sua capacidade de entender as cenas de TV e estabelecer conexões entre os motivos e comportamentos dos personagens, bem como as consequências das ações. Esta mudança do processamento do concreto para o processamento inferencial tem implicações também para outras formas de mídia, como um videogame e website. E seus julgamentos da realidade se tornarão mais precisos e discriminatórios à medida que ela compara o conteúdo de mídia com o que poderia eventualmente ocorrer no mundo real. Seu entendimento geral de uma mensagem da mídia é bastante avançado em comparação com o que ela era capaz de fazer quando estava nos primeiros anos da escola. No entanto, suas habilidades continuam a se desenvolver mesmo durante seus últimos anos do ensino fundamental.

Conclusão

Em outro artigo irei explorar como os adolescentes consomem as mídias. Mas, por agora é importante fixar que as crianças são um público especial e que precisa ser ensinado e guiado. Pais e educadores precisam desenvolver eles mesmos a habilidade de olhar criticamente os conteúdos que as crianças assistem nas telas e leem nos livros. Também, não considero mais seguro o caminho que leva a completa abstinência da mídia. Isso só irá tornar a criança mais vulnerável. A mídia pode ser algo positivo para as crianças se elas forem acompanhadas nesse processo.   Caso você tenha interesse por esse assunto recomendo outros artigos que escrevi sobre essa temática e a leitura do conteúdo das referências.  

Imagem: ShutterStock

Referências

[1] Generation M2: Media in the Lives of 8- to 18-Year-Olds https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED527859.pdf

[2] The Third-Person Effect: Perceptions of the Media’s Influence and Immoral Consequences. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/009365099026005001

[3] Children’s perceived truthfulness of television advertising and parental influence: A Hong Kong study. https://www.researchgate.net/publication/299317791_Children’s_perceived_truthfulness_of_television_advertising_and_parental_influence_A_Hong_Kong_study

[4] Strasburger, Victor C. (2013-03-13T22:58:59). Children, Adolescents, and the Media. SAGE Publications. Edição do Kindle.

[5] When Babies Watch Television: Attention-Getting, Attention-Holding, and the Implications for Learning from Video Material. https://eric.ed.gov/?id=EJ885311

[6] Media use and child sleep: the impact of content, timing, and environment. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21708803/

[7] The Effects of Background Television on the Toy Play Behavior of Very Young Children. https://www.researchgate.net/publication/23185023_The_Effects_of_Background_Television_on_the_Toy_Play_Behavior_of_Very_Young_Children

[8] Understanding the properties of interactive televised characters. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0193397312001141?via%3Dihub

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