Como assistir filmes pode ajudar na educação dos seus filhos

Nessa crise do Covid-19, tenho visto muitos pais preocupados com o fato de que seus filhos estão gastando mais tempo jogando e assistindo filmes. Não conhecemos os efeitos que isso trará, mas sabemos que de alguma forma irá influenciar o desenvolvimento das crianças. Esse artigo sugere uma forma positiva dos pais usarem os filmes para educar e interagir com os filhos.

O artigo está dividido em três partes. Sinta-se livre para pular para a que mais te interessar. A primeira parte é mais teórica e explica os benefícios e perigos de usar os filmes na educação de filhos. A segunda parte ensina como colocar o método na prática. Na terceira parte existe um exemplo de aplicação e links para outros sites que exploram o tema.

1.    Conceitos

No “Novo Normal” pais, filhos e dispositivos eletrônicos tem formado parte da mesma família. Eles estão interligados e são intimamente dependentes uns dos outros. Muitos pais agora trabalham em casa, enquanto outros precisam sair, enquanto as crianças, entediadas dentro de casa, procuram sozinhas, atividades que lhes tragam prazer e passatempo.   

Uma coisa parece ser inevitável: as crianças irão consumir cada vez mais as mídias digitais. Isso significa que a tarefa de educar filhos também ficará mais complexa. Pesquisas apontam que a nova dinâmica familiar está levando as crianças a assistirem desenhos e filmes mais cedo e a gastar mais tempo nessa atividade. De acordo com a Academia Americana de Pediatras, embora as crianças só comecem a entender o que assistem a partir dos 2 anos, em média elas começam a ser expostas às mídias digitais desde os seis meses de idade [1]. Isso nos leva a crer que as mídias estão se tornando uma babá e educando a muitas crianças. Só no primeiro trimestre de 2020, o consumo de filmes cresceu 20% em todo mundo devido ao confinamento do COVID-19[2].

Essas estatísticas refletem os novos tempos em que estamos vivendo e precisamos nos adaptar. Mas, será que é possível unir o útil ao inevitável: os adultos com a tarefa de educar e as crianças que irão consumir filmes e jogos cada vez mais? Se conseguirmos equalizar essa fórmula, teremos uma solução interessante.

Filmes como facilitadores do diálogo familiar

Alguns pais ficam com a língua presa quando tem que conversar com os filhos sobre questões sensíveis como relacionamentos, amor e amizades.  Os filmes podem ser uma ferramenta para facilitar essa tarefa. A exemplificação visual mostrada nos filmes ajuda a visualizar uma determinada situação e, uma vez terminado o filme, pais e filhos tem a oportunidade de discutir o significado do que assistiram.  Questões adicionais podem surgir e ajudar a resolver problemas de comunicação que, de outra forma, teriam dificultado uma discussão aberta e franca.

Filmes como apoio educacional

O uso dos filmes como ferramenta educacional não é algo da era Netflix. Em 1973 Leslie Lawrence publicou uma pesquisa com 450 filmes relevantes para ajudar pais e professores na educação e desenvolvimento de crianças deficientes[3].  No mesmo ano, McGovern e Brummer criaram uma lista de 33 filmes que poderiam ser utilizados para treinar cuidadores de crianças com retardo mental [4]. Em 2005 o Dr. Gary Solomon, Ph.D. e professor em psicologia, lançou seu terceiro livro sobre o uso de filmes para terapia familiar: “Cinemaparenting: Using Movies to Teach Life’s Most Important Lessons”( Cinemaparental: Usando Filmes para Ensinar as Lições Mais Importantes da Vida).

Por que usar filmes?

Não quero defender o uso de filmes como resolução para todo tipo de problema familiar. Contudo, creio que em alguns casos e para algumas famílias esse método pode ser relevante. Mas, volto com o assunto de que a decisão é dos pais.

Os filmes podem ser úteis em algumas situações. Por exemplo, você tem alguma das preocupações abaixo?

“Meus filhos não vão me ouvem”.

“Meus filhos estão tendo problemas na escola”.

“Eles estão sofrendo bullying”.

“Quando eu falo com meus filhos sobre sexo?”

“Minha esposa e eu nos divorciamos meses atrás e minha filha está tendo problemas em aceitar a mudança em nossa família”.

“Tudo o que ele quer é comer”.

“Minha filhinha é muito violenta, especialmente com relação aos animais”.

“Meu filho não se abre comigo e não se envolve com a família”.

Se você respondeu sim para alguma dessas perguntas, naturalmente outras perguntas surgirão a partir de agora:  como escolher o filme certo? Onde encontrar filmes bons para os meus filhos? Como dialogar sobre o filme? Então, vou tentar sugerir algumas respostas.

Os filmes e os pais

Vamos chamar esse método de cineparental. Ele tem como objetivo principal facilitar a comunicação entre pais e filhos. Nele, questões são retratadas visualmente e verbalmente, dando às pessoas a oportunidade de se relacionar e discutir seus próprios problemas através dos personagens do filme. Aqui se aplica o conceito: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

Como você fala com seu filho pequeno sobre a perda de um ente querido? O filme Babe, o porquinho atrapalhado pode ser uma opção (https://bit.ly/30SujzX). Seu filho está mentindo? Assista com ele a história do Pinóquio. Com problemas emocionais, tente a animação Divertida mente (https://bit.ly/2UPgwWT).

Para o Dr.Gary Solomon, nós gastamos muito tempo buscando o lado mal ou negativo das mensagens contidas nos filmes e deixamos de aproveitar aquilo que pode ser positivo para nós. É certo que existem filmes que influenciam negativamente, mas também existem aqueles que inspiram pensamentos positivos, motivam na escolha de uma carreira profissional, impulsionam a mudança de algum hábito ou comportamento, ensinam algo relevante sobre a história do mundo e geram um olhar mais empático em relação a pessoas que vivem numa realidade sofrida e diferente da nossa.

É certo que existem filmes que influenciam negativamente, mas também existem aqueles que inspiram pensamentos positivos.

Dr.Gary solomon

Um outro argumento é que os filmes fazem parte do sistema de linguagem das novas gerações e pode ser usado sabiamente para estabelecer uma comunicação. Mas, precisamos reconhecer que infelizmente muitas crianças não podem receber dos pais uma atenção ideal ou enfrentam problemas sociais que as privam da atenção paterna e, por isso, acabam sendo educadas pelo que veem nos filmes ou na TV. No cineparental a participação, supervisão e envolvimento dos pais é indispensável.

Agora vamos seguir para a parte mais prática ou o como fazer.

2. Na prática

Antes de usar os filmes

  1. Observe a faixa etária do filme. Veja se a idade do seu filho é apropriada para assisti-lo. Entretanto, a faixa etária não é a única garantia de que o conteúdo será apropriado. As faixas etárias servem para ajudarem aos pais a terem alguma ideia do que será exibido no filme. Elas são apenas sugestivas e podem ser incoerentes com o que você quer ensinar. Você como pai ou mãe deve tomar a decisão se o conteúdo é apropriado.
  2. Religião e moralidade. Famílias religiosas tem critérios mais estritos sobre o que assistir. Respeite suas crenças. Leia a sinopse do filme, comentários ou assista sozinho e decida antes de mostrar para as crianças.
  3. Estereótipos. Mesmo os filmes infantis podem exibir modelos falhos e passar mensagens irreais (o menino mais bonito é o que tem mais amigos, a menina vestida sensualmente é a mais cobiçada pelos rapazes, quem usa óculos é mais inteligente, etc). Esteja atento para comentar com os seus filhos quando a cena não representar a realidade. Reforce as mensagens corretas sempre e sempre.
  4. Não use filmes que assuste a criança. Algumas idades não conseguem fazer distinção entre a ficção e a realidade. Se o filme assustar a criança, sua família passará a noite em claro.
  5. Selecione. Existem filmes com conceitos muito positivos e relevantes, mas que em alguma cena podem apresentar algo que você julga errado. Nesses casos, avalie se vale a pena desprezar todo o conteúdo por causa daquela cena, se pula esse momento do vídeo ou se procura outras opções mais seguras.
  6. Não use apenas os filmes que você gosta. Na maioria das vezes eles não vão agradar seus filhos, principalmente se forem adolescentes.
  7. Violência. Outra decisão que você precisa tomar é com relação a violência. Muitos desenhos de décadas atrás, que pareciam ingênuos, exibiam muitas cenas violentas (Pica-pau, Tom e Jerry, Papa-léguas, Popeye, etc). Exemplos: quando um personagem empurra o outro montanha abaixo, faz o outro tropeçar e cair ou dá um soco, tudo isso é considerado violência. Alguns desenhos também mostram uso de armas e flechas. Quando uma cena dessas for exibida, oriente seu filho que aquilo é um exemplo negativo e irreal. “Não aponte armas para ninguém”, “Pessoas se machucam quando são empurradas”. Estabeleça uma discussão sobre o que é certo e errado naquilo que estão vendo. Transforme mensagens negativas em oportunidades para ensinar boas lições. Incentive a criança a falar sobre isso.   
  8. Sexualidade. Os filmes podem abrir as portas para discutir com seus filhos sobre a sexualidade. Preste atenção na maneira como os homens e mulheres são representados. Que estereótipos são apresentados? A mulher é sempre frágil e medrosa e o homem sempre forte e corajoso? O homem é médico e a mulher é enfermeira? A mulher tem que ser linda e sensual e o homem musculoso? Fique atento para corrigir essas representações sempre que forem exibidas.
  9. Por favor, não empurre seus filhos para conteúdos que eles não conseguem entender ou se recusam a assistir. Forçar seu filho irá simplesmente fazê-lo sentir-se pressionado e inadequado. Fique atento para não querer mais de seu filho do que ele pode dar. Vá com calma. Alguns especialistas não recomendam o uso de filmes para crianças abaixo dos 5 anos. Mas, se você encontrou um filme ou desenho animado que crê ser saudável e seguro para seu filho pequeno, deixe ele assistir apenas como entretenimento. Quando tiver a idade adequada, então discuta o significado. Não os pressione.

10 dicas de como assistir filmes com os filhos (Dr.Gary Solomon)

  1. Seja criativo ao usar esse método. Ele não é uma regra fixa a ser seguida.
  2. Assista primeiro o filme sem a presença deles por perto. Fique familiarizado com o conteúdo e decida se o filme é apropriado.
  3. Não use os filmes como uma babá. Não deixe a criança assistindo sozinha enquanto você realiza outras tarefas. Sente-se com seu filho, divirta-se com ele, observe seu comportamento.  
  4. Adolescentes. Para filhos maiores a abordagem deve ser diferente. Em alguns casos será melhor deixar que assistam sozinhos. Combinem um momento (o mais próximo possível) para conversarem sobre o filme.
  5. Escolha um lugar onde possam assistir sem distrações. Deixe o lanche por perto para não precisar interromper a atividade e evite produtos com cafeína ou outros estimulantes para não deixa-los agitados.
  6. Depois que o filme termina, estabeleça uma discussão saudável. Essa discussão é tão importante quanto assistir ao filme. Falem sobre os principais pontos que o filme aborda. Faça algumas perguntas e deixe que respondam o que entenderam. Deve ser uma conversa fluída e agradável. Não argumente, não ironize. Permita que eles expressem a própria ideia do que entenderam, não importa quão distorcido isso possa ser. Lembre-se, você está tentando saber o que seus filhos acreditam, tanto quanto você está tentando dar a eles lições de vida positivas. Se você acredita que o pensamento deles pode levar a problemas, tente deixar algumas ideias fluir na conversa que possam oferecer a eles uma abordagem alternativa. “Oh, então você acha que o herói deveria ter batido no vilão? Bem, ele poderia ter sido tratado de outra forma? Talvez ele pudesse ter ido embora ou se recusado a lutar”. “Talvez as crianças pudessem ter conseguido o que queriam sem roubar os doces”. “Possivelmente eles poderiam ter aceitado empregos de meio período, lavado carros ou emprestado o dinheiro”. Eu não estou sugerindo que você possa ter esse tipo de discussão toda vez. Mas, pelo menos pense em termos de enviar a mensagem que oferece uma solução mais positiva para o problema. A chave para este processo é: comunicar, comunicar, comunicar.
  7. Tente ter a discussão do filme no mesmo dia em que você o vê ou o mais próximo possível.
  8. Se for necessário, reveja o filme outras vezes. Sempre é possível encontrar novas mensagens não percebidas na primeira vez.
  9. Esteja preparado para mostrar mais de um filme para conseguir seu objetivo, mas deixe um intervalo de tempo entre eles. Dê tempo para que a mensagem seja absorvida.
  10.  Finalmente, torne essa atividade agradável. Nunca faça com que assistir a um filme seja punição. Ao contrário, tente transformá-lo em um evento. Luzes! Câmera! Ação! “É hora do show!” Se você tornar a experiência divertida, verá que tem pouca ou nenhuma resistência em conseguir que seus filhos discutam sobre o filme.

Resumindo, use os filmes para abrir as portas para a discussão e não para condenar os pensamentos e ideias dos filhos. Seja paciente com eles. Dê-lhes tempo para absorverem as mensagens. Use os filmes primeiro para o entretenimento e depois para a instrução. Veja os filmes mais de uma vez em vários momentos da vida. Não deixe de mostrar-lhes outros filmes que lidem com o mesmo assunto. O Cineparental pode levar tempo, mas tem o potencial de ter ótimos resultados. E o mais importante de tudo, gaste tempo de qualidade e divirta-se com seu filho.

Feliz7Play.com
O Feliz7Play.com é a solução ideal para quem busca filmes para a família com enfoque educativo, moral e religioso (grátis).

3. Cineparental – exemplo

Esse é um exemplo que você encontra no livro do Dr.Solomon, mas acrescentei referências de outros sites e filmes no final do artigo.

TÍTULO: 101 Dálmatas (clássico 1961)

101 dálmatas


TRAILER: https://imdb.to/2V5jc2X

FAIXA ETÁRIA: todas as idades

LIÇÕES DO FILME:

– Nunca desista

– Ajudar os outros

– Lidar com pessoas más

– Nunca leve nada que não seja seu

– Ter um amigo especial

PARA OS PAIS:

Que melhor maneira de ter filhos para aprender sobre alguns dos problemas da vida do que através da vida dos animais? Não nos preocupemos se os animais podem ou não falar ou serem tão espertos quanto este grupo. Use 101 Dálmatas para olhar alguns conceitos importantes para ensinar aos seus filhos sobre algumas questões morais e padrões sociais fundamentais. Observe como o filme reflete de perto a relação de Pongo e Prenda com a de uma relação humana. Você verá que eles podem aprender este conceito através dos animais do desenho animado. Certifique-se de que seus filhos observem o jeito carinhoso dos cães uns com os outros. Em alguns aspectos eles foram mais gentis do que o humano Roger. Quando Anita usou a palavra “idiota” ao se referir ao Roger, não foi amoroso nem carinhoso. Não há necessidade de usar esses termos em uma relação saudável. Observe a Prenda monitorar a linguagem de seus filhos enquanto assistem à televisão. Percebemos uma mensagem sutil de que o pai ensinou uma linguagem ruim para os jovens. Soa familiar? Além disso, você tem uma excelente oportunidade de ensinar aos seus filhos sobre a importância duradoura do papel de um pai na proteção de seus filhos. As crianças podem ficar frustradas com os limites que são colocados nelas. A frustração é normal. Na verdade, é saudável. E o que também é saudável é que as crianças entendem que sua natureza protetora faz parte de ser um pai.

CONVERSANDO COM SEUS FILHOS:

1.   Como você se sentiu quando Pongo e Roger conheceram suas companheiras especiais? Até mesmo as crianças têm interesse em conhecer pessoas especiais. Ensine-lhes que não precisam se envergonhar. E, claro, ensine-lhes a serem sempre educadas.

2.   A Cruella deixou você com raiva? Por quê? A Cruella representa o mal. É apropriado sentir raiva de alguém como Cruella? Pergunte aos seus filhos quem mais os faz sentir o que sentiram pela Cruella?

3.   Por que um dos filhotes estava com fome o tempo todo? Esta é uma oportunidade maravilhosa para falar com seus filhos sobre como preencher seus sentimentos com comida. É especialmente bom se você tem uma criança com um problema de peso.

4.   É correto tirar coisas de outras pessoas sem a permissão delas? Isso abre as portas para a moral e a ética. Em última análise, queremos ensinar nossos filhos a serem sempre honestos. Nunca e jamais roubar.

5.   Pongo nunca desistiu de procurar por seus filhos. Você sente vontade de desistir quando coisas não dão certo? Aqui está um bom exemplo de coragem. Converse com seus filhos sobre perseverar, seja lá o que for: escola, a equipe, um instrumento musical, etc. O objetivo é: faça sempre o seu melhor. Isso é sucesso.

6.   Você já chamou as pessoas de burras, estúpidas ou idiotas? Como você se sente quando alguém chama você desses nomes? Trabalhe com seus filhos na forma gentil de falar com e sobre as pessoas. Este é um desafio e tanto num mundo de mídia cheio de comentários negativos e depreciativos.

A MORAL PARA A HISTÓRIA:

Embora o mal possa ser usado contra você, se você perseverar e fizer o seu melhor, você terá sucesso.


Referências

Artigos acadêmicos

Livros:


Notas de rodapé

[1] Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/140/Supplement_2/S57

[2] https://www.b9.com.br/123993/com-pandemia-audiencia-de-streaming-de-video-cresce-20-no-mundo-durante-o-mes-de-marco/

[3] Films Relevant to Child Development Early Childhood Education and Preschool Education of Handicapped Children: An Annotated Listing. Volume III, No. 1, The Staff Training Resource Series. Disponível em: https://bit.ly/3d10QG7

[4] Films in Mental Retardation: A Select Annotated Bibliography. Working Paper No. 68. Disponível em https://bit.ly/3fwIKxH

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