Uma pesquisa com 1.003 pastores revela que 54% nunca disciplinaram um membro formalmente.

Existe uma prática bíblica que a maioria das igrejas conhece, ensina em teoria, mas raramente aplica na prática. Uma pesquisa da Lifeway Research, realizada com 1.003 pastores protestantes nos Estados Unidos, jogou luz sobre esse incômodo: 54% dos pastores afirmaram que nunca disciplinaram formalmente um membro.

Não temos números das igrejas no Brasil, mas a questao que fica é: o desuso da disciplina é sabedoria pastoral ou omissão disfarçada de graca?

O que a pesquisa revela

O levantamento da Lifeway (agosto-setembro de 2024) comparou os dados com uma pesquisa idêntica de 2017. A conclusão é que praticamente nada mudou em sete anos: a porcentagem de igrejas que nunca aplicaram disciplina formal permanece em torno de 54-55%.

O dado mais revelador é a tensão interna dos proprios pastores. 83% afirmaram que sua congregação busca confrontar o pecado não confessado de forma amorosa e bíblica. Mas menos da metade chegou a agir formalmente em algum momento.

Ha um abismo entre o que os líderes acreditam que fazem e o que de fato acontece. E esse abismo pode ter um nome: medo do conflito.

Igrejas maiores, com mais de 250 membros, disciplinam com mais frequência. Pastores de grandes igrejas tradicionais chegam a 82% de nunca ter agido formalmente. Já entre evangélicos, esse numero cai para 47% .

Por que a disciplina eclesiastica importa

A palavra disciplina carrega um peso negativo que ela não merece carregar. Na linguagem biblica, disciplinar é sinonimo de cuidar. O autor de Hebreus e direto:

“Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor, nem se magoe com a sua repreensão,
pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho”. Hebreus 12:5-6 (NVI)

Jesus mesmo estabeleceu um processo gradual em Mateus 18:15-17: conversa privada primeiro, depois com testemunhas, depois diante da comunidade. O objetivo em cada etapa é restauração, não punição.

Funções da disciplina

1. Protege a comunidade. Pecado não confrontado não fica contido, ele se espalha e normaliza comportamentos destrutivos.

2. Protege o proprio membro. Deixar alguem destruir sua vida sem confronto pastoral não é tolerancia; é abandono.

3. Protege a credibilidade da igreja. Quando lideres em situação de abuso não encontram nenhum processo que os responsabilize, a mensagem enviada é de que a igreja protege os seus independentemente do que fazem.

O desafio especifico do contexto brasileiro

A realidade das igrejas brasileiras amplifica os obstáculos já presentes nos dados americanos.

A cultura brasileira tem aversão ao confronto direto. O jeitinho, a valorizacao da harmonia relacional e o medo de parecer julgador criam uma barreira psicologica enorme. O pastor que confronta um membro corre o risco real de perdê-lo para outra denominação na esquina.

Alem disso, a explosão de ministérios independentes sem estrutura denominacional reproduz o problema dos 14% de pastores americanos sem nenhuma política oficial. No Brasil, esse percentual quase certamente é maior.

O outro extremo: quando a disciplina vira controle

A ausência de disciplina, em muitos casos, é uma reação legítima a abusos historicos. Comunidades que viram processos de disciplina serem usados para silenciar dissidência ou proteger líderes abusivos desenvolveram um reflexo de defesa compreensivel.

Daí a importância do processo. Mateus 18 não é apenas um mandato, mas também é uma protecao. A gradualidade existe exatamente para evitar que uma liderança centralizada destrua pessoas por impulso ou ressentimento.

Três perguntas práticas para líderes

Sua igreja tem um processo escrito e transparente? Se a resposta e não, o proximo passo não é disciplinar ninguem, é construir o processo com a liderança.

O processo protege todas as partes? O acusado tem direito a voz. O acusador tem proteção? A comunidade tem informação suficiente sem exposição desnecessária.

Estamos confundindo omissão com graça? A graça nao ignora o pecado, ela o confronta com amor e oferece o caminho de volta.

Conclusão

A pesquisa da Lifeway não condena os pastores que nunca disciplinaram um membro. Ela simplesmente revela que a maioria das igrejas esta operando sem um dos instrumentos pastorais mais antigos do Novo Testamento.

A disciplina eclesiástica feita com amor, processo e objetivo restaurativo não é o oposto da graca. E uma das suas expressões mais corajosas.

Referencias


PESQUISA PRINCIPAL
Lifeway Research. Pastors’ Views on Church Discipline. Survey of 1,003 American
Protestant Pastors. Ago-Set 2024. https://research.lifeway.com
TEXTOS BIBLICOS
Hebreus 12:5-6. Nova Versao Internacional (NVI). Disciplina como expressao do amor de Deus.
Mateus 18:15-17. Nova Versao Internacional (NVI). Processo gradual de restauracao estabelecido por Jesus.
2 Corintios 2:6-8. Nova Versao Internacional (NVI). Instrucao de Paulo sobre restauracao apos disciplina em Corinto.
OBRAS DE REFERENCIA
Leeman, Jonathan. Church Discipline: How the Church Protects the Name of Jesus.
Crossway, 2012. Serie 9Marks Building Healthy Churches.
Rainer, Thom S.. Anatomy of a Revived Church. Rainer Publishing, 2020. Dados sobre práticas de igrejas saudáveis.
Smith, Christian; Denton, Melinda Lundquist. Soul Searching: The Religious and Spiritual
Lives of American Teenagers. Oxford University Press, 2005. Conceito de Moralistic Therapeutic Deism.
CONTEXTO BRASILEIRO
Nicodemus, Augustus Lopes. A Igreja: sua identidade, missao e governo. Cultura Crista,

Fundamentos da ecclesiologia reformada no contexto brasileiro.
Costa, Hermisten Maia Pereira da. Fundamentos Biblicos da Disciplina Eclesiastica. Artigo disponivel em publicacoes da Fides Reformata.


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