Vivemos em uma era de transparência radical e, paradoxalmente, de cegueira profunda. Enquanto telescópios como o James Webb nos revelam as entranhas do universo, aqui na Terra, a base sobre a qual construímos nossa noção de “verdade” parece estar se esfarelando.
Recentemente, o cientista político e pastor Ryan Burge publicou uma análise instigante intitulada “The Truth Isn’t Out There”, onde ele traça uma linha direta entre o declínio da religião organizada e o aumento da crença em fenômenos como OVNIs e teorias da conspiração.
Mas o que isso nos diz sobre a nossa sociedade? Estaríamos trocando o altar pelo algoritmo e os anjos por alienígenas?
O Declínio da “Âncora” Institucional
Historicamente, a religião não era apenas um conjunto de ritos; era uma infraestrutura de sentido. Ela fornecia o que sociólogos chamam de “plausibilidade social“. Se a igreja, a escola e a família concordavam sobre o que era real, a sociedade tinha uma âncora.
Burge argumenta que, com a secularização acelerada (o crescimento dos “Nones” ou sem religião), essa âncora foi cortada. O resultado não foi um mundo puramente racional e científico, como os iluministas previam. Em vez disso, o que vemos é um vácuo de autoridade.
Quando as pessoas param de confiar no pastor, elas raramente passam a confiar cegamente no cientista; muitas vezes, passam a confiar no “influenciador de teorias alternativas” ou em fóruns obscuros da internet.
Alienígenas como Substituto da Transcendência
Um dos dados mais fascinantes da pesquisa de Burge é a correlação inversa entre a prática religiosa e a crença em extraterrestres.
- Cristãos praticantes e evangélicos conservadores são os grupos mais céticos em relação a visitas de ETs. Para eles, o cosmos já está “povoado” por uma narrativa bíblica clara. Não há espaço ou necessidade para “homenzinhos cinzas ou verdes”.
- Já os indivíduos sem filiação religiosa são os mais propensos a acreditar em inteligências extraterrestres. Para este grupo, o fenômeno UAP (Fenômenos Anômalos Não Identificados) oferece uma forma de transcendência que a ciência materialista não provê e que a religião tradicional, em sua visão, corrompeu.
Substituição Funcional
O texto argumenta que os seres humanos têm uma necessidade intrínseca de transcendência e de acreditar em algo “maior” que eles mesmos.
- Quando as estruturas do cristianismo tradicional declinam, o vácuo não é necessariamente preenchido pelo ateísmo científico puro, mas muitas vezes por “religiões seculares” ou misticismos modernos.
- A busca por inteligência extraterrestre, para muitos, ocupa o lugar que antes era da busca por Deus ou por anjos. É uma forma de “re-encantamento” do mundo em uma era tecnológica.
A Desconfiança nas Instituições
Burge conecta a crença em OVNIs ao mesmo ceticismo que afeta a religião e a política:
- Se você não confia nos pastores e não confia nos políticos, é mais provável que você acredite que o governo está escondendo a “verdade” sobre os alienígenas.
- Para os cristãos tradicionais, a verdade é revelada (na Bíblia); para os entusiastas de OVNIs, a verdade é oculta e conspiratória.
O Perfil do Crente em Alienígenas vs. Cristão
O artigo destaca que:
- Educação e Renda: Ao contrário do estereótipo, a crença em alienígenas atravessa classes sociais, mas floresce onde a identidade religiosa é fraca.
- Solidão Social: Pessoas menos conectadas a comunidades (como igrejas) são estatisticamente mais propensas a buscar respostas em teorias alternativas, incluindo fenômenos extraterrestres.
Burge conclui que o aumento do interesse por alienígenas na cultura americana é um sintoma direto do declínio da autoridade religiosa cristã. Enquanto o cristianismo oferece uma narrativa estruturada do universo, a “caça aos OVNIs” oferece uma espiritualidade descentralizada e individualista para um mundo que perdeu a confiança nas instituições tradicionais.
A busca por alienígenas é, no fundo, uma busca por um “Pai” ou uma “Inteligência Superior” em um formato que a mente tecnológica moderna consegue aceitar.
O Cenário Brasileiro: Onde a Fé e o Espaço se Cruzam
No Brasil, a análise de Burge ganha camadas extras. Diferente dos EUA, onde a crença em ETs muitas vezes substitui a igreja, no Brasil temos uma integração cultural.
O Espiritismo, com uma base sólida no país, sempre defendeu a “pluralidade dos mundos habitados”. Isso criou um solo fértil onde a ufologia não é vista como inimiga da fé, mas como uma extensão dela. No entanto, o rápido crescimento do segmento evangélico no Brasil atua como uma força de resistência a essa tendência, mantendo o foco na narrativa antropocêntrica e bíblica.
Estamos vendo uma polarização não apenas política, mas de cosmovisões: de um lado, a segurança da crença tradicional; do outro, a fluidez de uma espiritualidade tecnológica e descentralizada.
Conclusão: Para onde vamos?
A conclusão de Ryan Burge é sombria, mas necessária: a “verdade” não está mais “lá fora” porque destruímos os telescópios sociais que usávamos para enxergá-la. Em uma sociedade tecnológica que mata seus deuses tradicionais, novos deuses digitais, galácticos ou políticos surgem para ocupar o trono.
O desafio do nosso tempo não é apenas tecnológico; é existencial. Precisamos decidir se seremos capazes de reconstruir um consenso sobre a realidade ou se viveremos em um multiverso de verdades privadas, onde o vizinho do lado habita um cosmos completamente diferente do seu.
Referências e Leituras Complementares
Análise Sociológica e Dados:
- BURGE, Ryan. The Truth Isn’t Out There: Why the decline of religion leads to a rise in UFOs. Substack: Graphs About Religion, 2024. Disponível aqui.
- BURGE, Ryan. The Nones: Where They Came From, Who They Are, and Where They Are Going. Fortress Press, 2021. (Referência base sobre o crescimento dos sem-religião).
Cenário Brasileiro e Registros Oficiais:
- ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Relatórios de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs). Fundo: Objeto Voador Não Identificado (OVNI), Ministério da Aeronáutica. (Dados atualizados sobre os avistamentos no espaço aéreo brasileiro).
- CONGRESSO NACIONAL. Audiência Pública sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAPs). Senado Federal, 2022-2024. (Registros sobre a institucionalização do tema no Brasil).
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: Capítulo III – Da Pluralidade dos Mundos. (Base para a compreensão da integração entre fé e vida extraterrestre no Brasil).
Tecnologia e Sociedade:
- TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Basic Books. (Sobre como a tecnologia substitui conexões institucionais).
- SOCIEDADE TECNOLÓGICA. O Impacto dos Algoritmos na Percepção da Realidade. [Link para o seu próprio blog se houver artigo similar].



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