Riscos, pontes culturais e orientação para pais e educadores

1. Introdução

Jogos digitais não são, por definição, pornografia. Muitos jogos promovem criatividade, estratégia, socialização e até aprendizagem. Ainda assim, parte do mercado e de suas comunidades normaliza uma estética de sexualização (corpos hiperexpostos, poses e câmeras focadas no corpo, “fan service” e erotização de personagens). Em crianças e adolescentes, essa exposição pode influenciar a autoimagem, a forma de enxergar o outro e, talvez, sirva como uma ponte para o consumo de pornografia.

2. Como a sexualização aparece em games

Mesmo quando um jogo não é de sexo explícito, a sexualização pode aparecer:

  • Design de personagens: roupas e proporções irreais, foco em nudez parcial e sensualidade.
  • Câmera e animações: enquadramentos que destacam partes do corpo e poses sugestivas.
  • “Fan service”: cenas, piadas ou recompensas sensuais criadas para estimular, sem necessidade narrativa.
  • Marketing e skins: divulgação e roupas com apelo sensual.
  • Comunidade e mods: fanarts, vídeos curtos, fóruns e modificações que sexualizam ainda mais o conteúdo.

É importante ressaltar que maioria das vezes é o corpo da mulher que é alvo de maior exploração, exposição e objetificação nos games.

Um estudo analisou os efeitos de jogos com personagens femininas sexualizadas. Os resultados mostram que jogadores expostos a esse tipo de conteúdo tendem a praticar mais assédio contra mulheres. A pesquisa indica que a sexualização de personagens femininas pode, por si só, estimular comportamentos de assédio online contra mulheres.[2]

Um ponto crítico é que, muitas vezes, o conteúdo mais problemático não está no jogo “base”, mas no que circula em torno dele (redes sociais, grupos, mods e recomendações algorítmicas).

3. Possíveis efeitos em crianças e adolescentes

A adolescência é uma fase de formação de identidade e  valores sobre relacionamento, respeito e limites. Pesquisas em psicologia da mídia indicam que o consumo de mídia sexualizante se associa a auto-objetificação (avaliar a si e ao outro mais como corpo do que como pessoa integral)[1], além de efeitos ligados à percepção de gênero e tolerância a comportamentos inadequados como o abuso e violência sexual.[2]

Em termos práticos, a exposição repetida pode contribuir para:

  • Autoimagem e comparação: pressão por “corpo ideal”, vergonha corporal e ansiedade.
  • Objetificação: enxergar pessoas como objetos de desejo/consumo, e não como sujeitos com dignidade.
  • Confusão entre afeto e performance: aprender que valor vem de aparência e sensualidade.
  • Dessensibilização: limites morais enfraquecem quando o estímulo é constante e normalizado.

Organizações de proteção à infância alertam que a exposição precoce a pornografia pode estar ligada a riscos como objetificação, misoginia e normalização de violência sexual, entre outros efeitos.[3]

Importante: isso não significa determinismo (não é “viu uma vez, estragou”). O risco cresce com frequência, tempo de exposição,  intensidade, falta de supervisão e acesso ilimitado.

4. Relação dos games com a pornografia

A ligação mais comum entre sexualização em games e pornografia não é direta, mas por caminho de curiosidade e busca. Um roteiro típico é: personagem sensualizada → curiosidade → busca do nome/estilo (muitas vezes “anime”) → exposição a conteúdo explícito → algoritmo recomenda mais.

Além disso, alguns estudos sugerem que comportamentos digitais problemáticos podem coexistir em parte do público: há achados de associação entre o consumo de jogo online problemático e uso problemático de pornografia online.[4]

Revisões sobre pornografia na adolescência apontam associações com atitudes e crenças, mas também destacam que resultados podem variar e que a causalidade depende de múltiplos fatores (família, supervisão, saúde mental, pares e contexto cultural).[5][6]

5. Indícios em relatórios de tendências (consumo de personagens e franquias)

Relatórios anuais públicos de grandes sites adultos, como o Pornhub Insights (“Year in Review”), costumam destacar termos e categorias mais buscados. O acesso direto ao relatório pode variar por região e restrições de idade; por isso, é comum usar resumos publicados por veículos de mídia que reproduzem gráficos e listas do relatório.

Em resumos do relatório de 2024, aparecem franquias e personagens de games entre buscas frequentes, como Fortnite entre os jogos mais buscados e personagens como Chun-Li, Lara Croft e Tifa em listas de buscas de personagens.[7]

Esses dados não provam causalidade (jogo não “gera” hábito de pornografia automaticamente), mas mostram a relevância do consumo cruzado: alguns games são frequentemente sexualizados e buscados também no contexto pornográfico.

Isso não significa que toda criança ou adolescente vá consumir pornografia por jogar, mas, para alguns, o risco é maior. A curiosidade por saber mais sobre os personagens pode levá-los a sites onde os personagens são representados nus ou em atos sexuais.

6. Erotização de aparência infantil (“loli” e similares)

Quando a sexualização envolve personagens que são crianças ou têm aparência infantil, o risco moral e psicológico é grave. Mesmo quando alguém tenta normalizar como “ficção”, isso pode dessensibilizar, confundir limites e corroer a proteção da infância. Para famílias e escolas, a orientação é de tolerância zero: interromper o acesso, dialogar com firmeza e buscar apoio se houver recorrência ou sinais de compulsão.

7. Orientações para pais e educadores (plano prático)

  1. Presença: Saiba o que a criança/adolescente joga e com quem. Assista a trechos e entenda a comunidade ao redor do jogo.
  2. Limites: Defina horários, locais (evite jogar sozinho no quarto, especialmente à noite) e regras sobre mods, downloads e chats.
  3. Ferramentas: Use controle parental, senhas para instalação de apps/mods, filtros e restrições por idade. Ferramentas não substituem diálogo, mas ajudam muito.
  4. Conversas: Converse toda semana por 10-15 minutos: sem sermão, com perguntas abertas. Deixe claro que a criança pode contar se vir algo inadequado.
  5. Comunidade e propósito: Fortaleça vida offline: esportes, música, serviço e amizades saudáveis. O segredo perde força quando há pertencimento real.

Como reagir se já houve exposição: evite gritos e humilhação (isso empurra para o segredo). Acolha, investigue com calma, ajuste o ambiente digital e acompanhe. A Academia Americana de Pediatria recomenda preparar as crianças para possíveis exposições online e orienta conversas adequadas à idade.[8]

8. Conclusão

A pornografia e a sexualização distorcem a realidade ao transformar pessoas em produto, prazer em consumo e intimidade em espetáculo. Isso fere a dignidade humana e enfraquece vínculos de respeito e compromisso.

É importante que pais e educadores estejam atentos aos jogos que os mais jovens consomem e a maneira como os personagens são representados.

Referências

[1] Karsay, K., Knoll, J., & Matthes, J. (2018). Sexualizing media use and self-objectification: A meta-analysis. Psychology of Women Quarterly, 42(1), 9-28. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0361684317743019 (acesso em 12 jan. 2026).

[2] Dill, K. E., Brown, B. P., & Collins, M. A. (2008). Effects of exposure to sex-stereotyped video game characters on tolerance of sexual harassment. Journal of Experimental Social Psychology, 44(5), 1402-1408. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2008.06.002. Burnay, J., Bushman, B. J., & Laroi, C. (2019). Effects of sexualized video games on online sexual harassment. Aggressive Behavior. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30614006/. Bègue, L., Sarda, E., Gentile, D. A., Bry, C., & Roché, S. (2017). Video Games Exposure and Sexism in a Representative Sample of Adolescents. Frontiers in Psychology, 8, 466. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.00466 (acesso em 12 jan. 2026).

[3] UNICEF. Protection of children from the harmful impacts of pornography. https://www.unicef.org/harmful-content-online (acesso em 12 jan. 2026).

[4] Rozgonjuk, D., Schivinski, B., Pontes, H. M., & Montag, C. (2023; corrected publication 2022). Problematic Online Behaviors Among Gamers: the Links Between Problematic Gaming, Gambling, Shopping, Pornography Use, and Social Networking. International Journal of Mental Health and Addiction. https://doi.org/10.1007/s11469-021-00590-3 (acesso em 12 jan. 2026).

[5] Peter, J., & Valkenburg, P. M. (2016). Adolescents and Pornography: A Review of 20 Years of Research. The Journal of Sex Research. https://doi.org/10.1080/00224499.2016.1143441 (acesso em 12 jan. 2026).

[6] Paulus, F. W., Nouri, F., Ohmann, S., Möhler, E., & Popow, C. (2024). The impact of Internet pornography on children and adolescents: a systematic review. L’Encéphale, 50, 649-662. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38519310/ (acesso em 12 jan. 2026).

[7] Resumos e reproduções de listas/gráficos (exemplos): LADbible (12 dez. 2024) https://www.ladbible.com/news/world-news/pornhub-2024-chun-li-lara-croft-video-games-136686-20241212; UNILAD Tech (11 dez. 2024) https://www.uniladtech.com/news/pornhub-annual-review-searched-video-games-characters-830865-20241211 ; GamerBraves (dez. 2024) https://www.gamerbraves.com/chun-li-reigns-supreme-pornhub-reveals-top-video-game-characters-of-2024/ (acesso em 12 jan. 2026).

[8] American Academy of Pediatrics (AAP). Talking to your child about online pornography exposure. https://www.aap.org/en/patient-care/media-and-children/center-of-excellence-on-social-media-and-youth-mental-health/qa-portal/qa-portal-library/qa-portal-library-questions/talking-to-your-child-about-online-pornography-exposure/ (acesso em 12 jan. 2026).


Descubra mais sobre Sociedade Tecnológica

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Trending