Se você não tem ideia do que esse título representa, então esse artigo é para você.
Talvez você já viu uma criança ou adolescente vidrado em vídeos curtos e memes absurdos no celular, e talvez tenha ouvido eles usarem o termo “brain rot” para descrever essa experiência. Pelo sim ou pelo não, seguem algumas explicações.
O termo Brain rot não é novo e significa “cérebro apodrecido”. Ele reflete a preocupação com os efeitos da vida digital moderna na mente humana. No entanto, em 2025, ironicamente, o termo ganhou um novo significado na conversa de crianças e adolescentes. Eles propositalmente usam esse termo para descrever os memes virais que criam com a ajuda da Inteligência Artificial (IA) para contar estórias improváveis, numa espécie de trava-línguas, e sempre em tom de humor, ironia ou sarcasmo.
Origem e Significado do Termo “Brain Rot Italiano”
A tendência conhecida como “Italian Brain Rot” (ou brain rot italiano) refere-se a uma série de vídeos virais marcados por conteúdo surreal, repetitivo e aparentemente sem sentido.
Surgida no TikTok no início de 2025, essa febre rapidamente dominou o TikTok e Instagram entre adolescentes, inclusive no Brasil. Os vídeos típicos apresentam criaturas híbridas geradas por inteligência artificial – por exemplo, um tubarão branco usando tênis Nike, um crocodilo fundido a um avião ou mesmo um “gato-peixe” com pernas humanas – acompanhadas de narrações automáticas em língua italiana.
O lado sério: O termo “brain rot” ganhou notoriedade a ponto de ser escolhido pelo Dicionário Oxford como Palavra do Ano de 2024, após um aumento de 230% nas buscas. Nessa época o “brainrot” passou a definir o estado de consumo contínuo de vídeos triviais e hipnóticos – justamente como os desse meme italiano.

Já o “Italian Brain Rot” começou a se popularizar em 2025 a partir de um vídeo específico apelidado de “Tralalero Tralala”, no qual um tubarão antropomorfizado de tênis azuis corre em uma praia ao som de uma rima repetitiva em italiano. Esse vídeo inicial tornou-se viral e acumulou milhões de visualizações – um repost obteve mais de 17 milhões de reproduções e 1 milhão de curtidas em apenas três meses.
Logo surgiram outras criaturas de nome rimado, como “Bombardiro Crocodilo” (uma fusão de crocodilo com bombardeiro aéreo) e “Lirili Larila” (um “elefante-cacto” andando de nadadeiras pelo deserto), todas narradas com o mesmo estilo de voz sintética italiana e frases esdrúxulas.
A fórmula também foi adaptada em outros idiomas: por exemplo, o “Tung Tung Tung Sahur” na Indonésia replicou o conceito em língua local. Até no Brasil apareceram versões locais – como o “Brasilini Birimbini”, inspirado em um berimbau. Até clubes de futebol (como São Paulo e Flamengo) criaram vídeos próprios com esses personagens, impulsionando a moda entre jovens brasileiros.

Recepção, humor e pertencimento cultural
Apesar do caráter aparentemente sem sentido, o brain rot italiano tornou-se enormemente popular entre adolescentes, justamente por abraçar o humor absurdo e a ironia. Muitos jovens acham graça e riem porque o vídeo não faz sentido, num tipo de humor pós-moderno.
Conforme observado na mídia, essa combinação de “humor absurdo, estética surreal e conteúdo de IA” acaba desconcertando mas ao mesmo tempo fascinando o público, a ponto de os vídeos se tornarem “viciantes” para as audiências mais jovens.
É comum os adolescentes compartilharem esses memes entre si e repetirem as frases nonsense como piadas internas, o que reforça um sentimento de comunidade e pertencimento – quem “entende” o meme sente que faz parte daquele círculo cultural.

Por que o Brain Rot Faz Sucesso entre Crianças e Adolescentes?
Para adultos, esses vídeos podem parecer tolos – mas para crianças e adolescentes, há motivos fortes para esse tipo de conteúdo ser tão atraente. Entre os fatores psicológicos, sociais e de consumo que explicam o sucesso do brain rot, destacam-se:
- Humor absurdo e cultura de memes: A geração atual tem um estilo de humor muito apoiado no nonsense, no aleatório e no exagero. Vídeos como a série viral “Skibidi Toilet” – que mostra cabeças cantoras emergindo de privadas dançantes – são exemplos de brain rot relativamente inofensivo que os jovens acham hilário. Parte da diversão está justamente em algo ser tão bobo que fica engraçado.
- Escapismo e alívio do estresse: A adolescência é cheia de pressões – provas escolares, cobranças sobre o futuro, problemas do mundo pipocando na internet. Nessa realidade, o brain rot serve como válvula de escape mental. Vídeos tolos e descontraídos funcionam como um “oásis de calma no meio do caos”, permitindo que desliguem um pouco o cérebro das preocupações e apenas relaxem.
- Influência dos pares e efeito viral: Se “todo mundo” na escola está comentando o meme do momento ou imitando a dancinha X do TikTok, a criança não quer ficar por fora. O brain rot propaga-se também porque é altamente compartilhável – um vídeo bobo de 15 segundos pode viralizar em questão de horas no WhatsApp da turma.
- Em resumo, o brain rot faz sucesso também porque é coletivo e contagiante: os jovens impulsionam uns aos outros a consumir e reproduzir esse tipo de conteúdo.
Impactos do Brain Rot: Efeitos Negativos
Como qualquer tendência de consumo excessivo, o brain rot traz preocupações reais sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes. A ideia de “cérebro apodrecido” não é apenas brincadeira – pesquisadores e profissionais da saúde mental alertam que excesso de conteúdo superficial pode sim afetar o cérebro jovem em formação.
Diante disso, o brain rot parece ser algo negativo, no entanto, é válido perguntar: há algum lado positivo ou neutro nesse tipo de conteúdo? Surpreendentemente, sim.
Primeiro, o humor e a criatividade presentes nesses vídeos e memes podem oferecer alívios momentâneos saudáveis. Rir de algo bobo ou assistir a um vídeo leve após um dia estressante pode reduzir a tensão e melhorar o humor, como uma forma de descanso mental. Especialistas em saúde mental reconhecem que tirar um tempo para atividades relaxantes (mesmo que seja ver vídeos tolos) pode ajudar a recarregar as energias e evitar o burnout, desde que feito com moderação.
Além disso, o próprio uso irônico do termo pelos jovens demonstra uma autoconsciência: eles sabem que aquele conteúdo é “lixo”, mas ao rotulá-lo de brain rot eles criam uma distância crítica, ainda que bem-humorada, em relação ao vício digital. Essa autoconsciência irreverente pode ser considerada um ponto positivo, pois indica que muitos adolescentes não estão totalmente alienados.
Em suma, o valor “positivo” do brain rot está em ser um passatempo divertido e em servir de escape do estresse, contanto que não se torne o único tipo de conteúdo consumido. O equilíbrio é fundamental. Assim como uma sobremesa doce pode alegrar o dia mas não deve substituir as refeições nutritivas, os vídeos bobinhos podem fazer rir e relaxar, mas não podem ser a atividade principal da criança ou adolescente o tempo todo.
Recomendações Práticas para Pais e Educadores Lidarem com o Brain Rot
- Esteja atento aos sinais e entenda o universo digital do jovem
- Estabeleça limites saudáveis de tempo de tela
- Incentive conteúdo de qualidade e pensamento crítico
- Ofereça alternativas offline atraentes.
- Dialogue sobre limites e riscos, sem demonizar a tecnologia
- Seja um modelo e crie momentos em família sem tecnologia
Conclusão
O brain rot é um sinal dos tempos digitais em que vivemos – um termo bem-humorado criado pelos jovens para dar nome a um excesso que eles mesmos reconhecem. Por trás do meme, há uma mensagem importante: nossas crianças e adolescentes estão crescendo em um mundo de informação abundante, diversão instantânea e também de desafios inéditos para a saúde mental e espiritual. Cabe a nós, pais e educadores, guiá-los nessa jornada digital com sabedoria, equilíbrio e empatia.
Em última análise, preparar nossas crianças e adolescentes para lidar com o brain rot (e outras tendências que virão) é prepará-los para exercer discernimento em tudo na vida. É ensiná-los a equilibrar trabalho e descanso, dever e lazer, o útil e o fútil – habilidades que serão fundamentais na formação de seu caráter. Com orientação amorosa, diálogo aberto e exemplos consistentes, é possível conviver com a era das telas sem deixar “apodrecer” o que temos de mais valioso: nossas mentes e nossos valores.
Afinal, “transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2) nunca fez tanto sentido – é renovando a mente com coisas boas e verdadeiras que evitamos que ela se deteriore com excesso de vazio. Esse é um conselho atemporal que vale no mundo analógico e, certamente, no mundo digital também.

Referências:
CNN BRASIL. ‘Rizz’ é escolhida como palavra do ano; veja o que significa. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 4 maio 2025.
GALILEU. Humor aleatório, dopamina e burnout digital: por que o conteúdo “bobo” pode nos cansar?. Revista Galileu, 2024. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com. Acesso em: 4 maio 2025.
HEALTH.COM. Why you can’t stop watching those short videos. Health, 2024. Disponível em: https://www.health.com. Acesso em: 4 maio 2025.
MOBICIP. Digital wellbeing guide for parents. 2024. Disponível em: https://www.mobicip.com. Acesso em: 4 maio 2025.
NEXO JORNAL. O que é ‘brainrot’, a gíria que virou finalista da palavra do ano. 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br. Acesso em: 4 maio 2025.
OXFORD UNIVERSITY PRESS. Oxford Word of the Year 2024. Oxford Languages, 2024. Disponível em: https://languages.oup.com. Acesso em: 4 maio 2025.
PSYCHE MAGAZINE. The teenage brain on TikTok. Psyche, 2024. Disponível em: https://psyche.co. Acesso em: 4 maio 2025.
PUBMED CENTRAL. Digital media and adolescent cognitive overload: a review. PMC, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc. Acesso em: 4 maio 2025.
PSYCHOLOGY TODAY. Teens, dopamine and digital addiction. 2023. Disponível em: https://www.psychologytoday.com. Acesso em: 4 maio 2025.
THE ATLANTIC. How the internet rewires attention. 2023. Disponível em: https://www.theatlantic.com. Acesso em: 4 maio 2025.
Fontes do tema Brain rot italiano
- folhavitoria.com.br Folha Vitória – “Tralalelo Tralala”: entenda o fenômeno viral “Italian Brainrot” (28/04/2025)
- folhavitoria.com.br Folha Vitória – Origens do Italian Brainrot e expansão internacional (2025)
- knowyourmeme.com Know Your Meme – Desempenho do vídeo Tralalero Tralala (17 milhões de visualizações, 1 milhão de likes em 3 meses)
- infobae.com Infobae – Tendência viral mistura humor absurdo e conteúdo de IA, cativando o público jovem (17/04/2025)
- reddit.com Reddit (r/popularopinion) – Opinião de usuário sobre vídeos brainrot serem “só nonsense” (2025)
- folhavitoria.com.br Folha Vitória – Significado do termo “brainrot” e uso nas redes sociais (Oxford WOTY 2024)



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