O que é Pânico Moral?

Um pânico moral é um sentimento coletivo de medo exagerado. Medo de que algo  possa ameaçar os valores ou o bem-estar da sociedade[1]. Em resumo, trata-se de quando nossos temores sobre algo excedem em muito o perigo real que aquilo representa[2].

O termo foi cunhado pelo sociólogo Stanley Cohen nos anos 1970 para descrever como certas situações ou tecnologias passam a ser vistas como grande ameaça aos valores morais predominantes. Quando isso ocorre, a mídia costuma amplificar o problema através de artigos em jornais, revistas, entrevistas e celebridades que expressam indignação levando o público em geral a entrar num estado de alerta ou pânico.

Por que isso acontece?

  1. Faz parte da natureza humana sermos cautelosos com o desconhecido: “melhor prevenir do que remediar”.
  2. Mudanças rápidas podem provocar ansiedade, especialmente em pais, educadores e líderes religiosos preocupados em proteger os jovens e a comunidade.
  3. Há também um choque de gerações: os mais velhos tendem a olhar com desconfiança os hábitos dos mais novos, achando que a juventude atual decaiu em comparação à de seu tempo[3]. Quando surge uma novidade tecnológica adotada pelos jovens, é comum que a geração anterior estranhe e critique [4].
  4. Soma-se a isso também os riscos reais e daí se tem os ingredientes para um pânico moral.

Pânicos Morais tecnológicos na História

Ao longo da história, diversas inovações tecnológicas acenderam esse tipo de alarme social [5]. Alguns exemplos:

  • O Rádio (anos 1920): Quando o rádio se popularizou, muita gente se preocupou. Houve quem condenasse o novo meio como uma calamidade pública – “nunca uma maldição como essa desceu sobre a país [6]. Temia-se que o rádio trouxesse barulho, distração e conteúdo de má qualidade invadindo os lares.
  • A Televisão (décadas de 1950–60): Com a chegada da TV, muitos temiam a influência da televisão sobre as crianças. Questionava-se o bombardeio de violência e sexualidade nas telas e seu impacto nos jovens[8]. Em 1969, nos EUA, chegou-se a tratar a violência na TV como “problema de saúde pública”, convocando pesquisas nacionais comparáveis às feitas sobre o tabaco[9].
  • A Internet (anos 1990–2000): Quando a internet se disseminou, surgiram alertas de todo tipo e notícias sobre “cyberpornografia”, histórias de predadores online em salas de bate-papo e etc. Instalou-se em parte da opinião pública a noção de que a internet seria uma terra sem lei, onde o crime e a imoralidade correriam soltos[10]. No início dos anos 2000, muitos líderes religiosos chegaram a demonizar a web, chamando-a literalmente de “coisa do diabo”[11].

Redes sociais e Pânico Moral

Nos últimos anos vivemos um novo ciclo de pânico moral, agora em torno das redes sociais. Plataformas como Facebook, YouTube, Instagram e TikTok se integraram ao dia a dia, especialmente dos mais jovens e com elas vieram os receios.

Hoje, as redes sociais são acusadas de uma longa lista de males: vício em dopamina digital e telas, superficialidade nas relações, cyberbullying, propaganda de ódio, facilitação de crimes, cooptação por terroristas, polarização política, desinformação em massa (fake news) e radicalização de pessoas vulneráveis. [12]

Há motivos legítimos de preocupação. Contudo, muitos especialistas apontam que existe também um exagero e generalização nas críticas, a ponto de se configurar um pânico moral semelhante aos anteriores.

Transferência da culpa

Alguns autores argumentam que estamos culpando as tecnologias e plataformas por problemas sociais amplos que elas apenas revelam. [13].

Exemplificando, as atividades negativas como bullying, fofoca, exposição a conteúdo impróprio ou mesmo manipulação política sempre existiram; as redes apenas tornaram essas dinâmicas mais visíveis (uma “hipertransparência” da interação humana moderna)[12].

No ramo acadêmico, a pesquisadora Amy Orben afirma que algumas pesquisas sobre tecnologias emergentes perdem o foco da verdade, sendo influenciadas por medos, interesses e falta de rigor. A ausência de uma base metodológica sólida gera resultados confusos e pouca utilidade prática. Ela defende que a ciência deve ser mais autocrítica e comprometida com a honestidade. [1]

Candice Odgers defende que o problema da saúde mental dos adolescentes não pode ser atribuído apenas a Internet ou ao tempo excessivo de tela.  O estresse e ansiedade das novas gerações envolve muitos outros fatores. O que as pesquisas sérias revelam é que os adolescentes que já enfrentam dificuldades podem sentir-se mais atraídos pelas telas e mais propensos a formar relações pouco saudáveis com a mídia.[2]

Sendo assim, o problema que muitas vezes é atribuído à tecnologia, na verdade pode estar sendo originado em outra fonte. Por exemplo, o vício em telas de um adolescente pode ser a consequência ou a manifestação de um outro problema, como a solidão, tédio, busca por dopamina, fuga da realidade, pressão social etc.

Para saber como ajudar as novas gerações a lidar com a ansiedade e depressão, é necessário primeiro entender a origem real do problema, que pode variar de pessoa para pessoa.

Os Riscos do Pânico Moral na Educação

Quando o pânico moral entra na escola, os prejuízos podem ser significativos. Educadores e pais, movidos pela melhor das intenções, podem adotar medidas extremas para “proteger” os jovens – mas, sem perceber, acabam bloqueando ferramentas e métodos que poderiam enriquecer a aprendizagem.

Por exemplo, a chegada de computadores, internet e dispositivos móveis às salas de aula gerou muita resistência. É compreensível: professores temiam perder o controle da turma ou que a tecnologia fosse apenas distração. De fato, um receio comum é que, se alunos tiverem acesso livre à internet na aula, vão dispersar-se em redes sociais e outros atrativos em vez de focar no conteúdo[17]. Esse medo levou muitas escolas a proibir totalmente celulares e restringir a internet – uma reação que visa evitar abusos, mas que também impede usos positivos.

O grande risco aqui é jogar fora o bebê junto com a água do banho. Sim, smartphones podem distrair, mas também podem ser usados como ferramentas pedagógicas poderosas (pesquisas, aplicativos educacionais, interação ampliada). Sim, a internet tem conteúdo ruim, mas também dá acesso a bibliotecas, museus, cursos online e troca de conhecimento entre escolas do mundo todo. Em um mundo digital, privar os jovens de aprender a usar tecnologia de forma responsável é quase como impedi-los de alfabetização num novo “idioma” essencial.

O antídoto? Equilíbrio e formação. Como apontam especialistas, simplesmente proibir não resolve – o que resolve é educar sobre o uso consciente, embora isso exija esforço e envolvimento dos adultos[18].

Na prática educacional, isso significa: em vez de banir totalmente, estabelecer regras de uso, integrar a tecnologia ao plano pedagógico, treinar os professores para utilizá-la de forma produtiva.

A Demonização da tecnologia no Âmbito Religioso

Como vemos, não há inovação que tenha escapado ilesa ao pânico moral. Até invenções hoje banais, no passado, geraram medo: no século XV, a Igreja reagiu contra a imprensa de Gutenberg e a tradução da Bíblia, temendo que “as pessoas comuns não estivessem preparadas” para ler por conta própria.

Autoridades religiosas acreditavam que a livre leitura poderia distorcer a fé, levando à heresia e ao caos social, e chegaram a impor punições severas – William Tyndale, que traduziu a Bíblia para o inglês, foi executado por isso[14].

Foi um protótipo de pânico moral causado pelo medo de perder o controle sobre a sociedade diante de uma nova tecnologia[15][16]. No longo prazo, porém, a imprensa tornou possível a democratização do conhecimento e até o fortalecimento da religião por outros meios. Esse padrão se repetiu com o rádio, a TV, a internet e assim por diante: inicialmente encarados como ameaças morais à ordem estabelecida, mas depois integrados e frequentemente usados para o bem.

Comunidades de fé, igrejas, congregações, líderes religiosos  também enfrentam seus dilemas diante das inovações culturais e tecnológicas. A religião, por lidar com valores profundos e tradições sagradas, tende a responder com prudência (ou mesmo resistência) ao novo. Porém, quando essa cautela degenera em pânico moral, os efeitos podem ser problemáticos tanto para a sociedade quanto para a própria missão religiosa.

Um padrão histórico é a demonização literal de novas mídias por parte de alguns líderes religiosos. Não são raros os discursos chamando certa tecnologia de “obra do Demônio” antes mesmo de compreendê-la bem. Nos anos 1920–30, algumas denominações conservadoras olhavam o rádio com suspeita; nos anos 1950–60, a televisão foi apelidada por certos pregadores de “instrumento do diabo” por supostamente infiltrar valores mundanos nos lares. Mais recentemente, como citado, houve pastores que demonizaram a internet: no início deste século, líderes evangélicos no Brasil afirmavam que a web era “coisa do diabo” e orientavam os fiéis a mantê-la fora de casa[11]. Da mesma forma, artigos em revistas cristãs alertavam que “o diabo tem usado a televisão como uma de suas principais armas para destruir as famílias e seus valores”[19]. Expressões assim, bastante fortes, refletem um medo genuíno de que as novidades tecnológicas corroam a moral, espalhem pecado ou enfraqueçam a fé.

É evidente que existem motivos reais de preocupação religiosa: conteúdos que vão contra princípios (violência gratuita, sexualização, blasfêmias), a possibilidade de que entretenimento excessivo afaste as pessoas da espiritualidade, etc. O problema do pânico moral, porém, é a resposta simplista e extrema: condenar o meio em si ao invés de discernir o uso. Isso pode levar comunidades inteiras a se isolarem do restante da sociedade ou a perder oportunidades de difundir sua mensagem pelo novo canal.

Um exemplo claro é o da internet nas igrejas. No início, rejeição total; mas veio a pandemia de COVID-19 e muitas congregações descobriram na marra o valor da tecnologia[11]. Essa guinada evidencia que a postura inicial talvez tenha sido radical demais.

Contudo, há uma conscientização crescente entre religiosos de mente aberta de que é possível adotar uma postura equilibrada. Por exemplo, pastores experientes recomendam não simplesmente proibir a televisão ou a internet, mas acompanhar o uso: assistir junto com os filhos, orientar sobre o que contraria os valores cristãos, trocar impressões à luz da fé. “Proibição não resolve. O que resolve é educar”, disse um pastor quando questionado sobre TV e crianças, reconhecendo que dá mais trabalho monitorar e ensinar do que cortar o fio da tomada[18].

Discernimento e Abertura: Do Medo à Sabedoria

Diante de tudo isso, qual seria então a melhor atitude frente às mudanças tecnológicas e culturais? A resposta parece residir em discernimento e equilíbrio. Nem oito nem oitenta: nem ingenuidade cega, nem pânico moral.

Em primeiro lugar, é válido e até necessário ter preocupações legítimas. Pais responsáveis se interessam pelo que os filhos consomem na internet; educadores dedicados questionam se uma ferramenta realmente melhora o aprendizado; líderes religiosos atentos zelam para que valores fundamentais não se percam. Essas preocupações fazem parte do papel protetor e orientador de cada um. Muitas vezes, graças a elas, são instauradas salvaguardas importantes – por exemplo, classificação indicativa na TV, controles parentais em dispositivos, políticas anti-bullying nas redes, leis que coíbem crimes virtuais etc. Reconhecer riscos reais (como fake news, vício digital, exposição precoce a violência ou sexualidade) é sinal de prudência, não de histeria.

Contudo, a linha divisória entre a prudência e o pânico moral está na proporção e fundamentação da resposta. Quando reagimos a algo novo, precisamos perguntar: estamos avaliando com fatos e calma, ou estamos indo na onda do sensacionalismo? Se cada nova tecnologia é tratada automaticamente como inimiga mortal, provavelmente caímos no exagero. Lembremos que no pânico moral costuma-se superdimensionar a ameaça[2] , problemas complexos ganham explicações simplistas (culpar só o videogame pela violência juvenil, ou só a internet por todos os vícios modernos, por exemplo

Em vez de barrar cegamente uma ferramenta, podemos sondar: Como podemos usá-la para o bem? Essa pergunta levou escolas a adotarem tablets de forma disciplinada, e igrejas a alcançarem os jovens pelo Instagram, por exemplo. Em vez de julgar apressadamente uma mudança cultural, podemos primeiro compreendê-la: quais anseios ela reflete, que vazio busca preencher? Muitas vezes, o diálogo intergeracional surge daí, diminuindo o abismo de incompreensão que alimenta os pânicos morais.

Referências


[1] Pânico moral – Wikipédia, a enciclopédia livre

https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A2nico_moral

[2] [3] [4] [14] [15] [16] files.eric.ed.gov

[5] The Radio: Blessing or Curse? A 1929 Debate | National Humanities Center

[6] [7] The Radio as New Technology: Blessing or Curse? A 1929 Debate, selections from The Forum, 1929

[8] [9] A History of Panic Over Entertainment Technology – Behavioral Scientist

[10] Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul – Rede segura: Leis aprovadas na ALEMS combatem violações de direitos n…

https://al.ms.gov.br/Noticias/133626/brede-segura-b-leis-aprovadas-na-alems-combatem-violacoes-de-direitos-na-internet

[11] De “coisa do diabo” a canal de divulgação da Palavra em tempos de covid-19 – Instituto Humanitas Unisinos – IHU

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/600801-de-coisa-do-diabo-a-canal-de-divulgacao-da-palavra-em-tempos-de-covid-19

[12] [13] Challenging the Social Media Moral Panic: Preserving Free Expression under Hypertransparency | Cato Institute

https://www.cato.org/policy-analysis/challenging-social-media-moral-panic-preserving-free-expression-under

[17] Revista Educação | Desafios dos professores para incorporar as novas tecnologias no ensino

https://revistaeducacao.com.br/2018/05/09/quais-os-desafios-dos-professores-para-incorporar-as-novas-tecnologias-no-ensino

[18] [19] Televisão: tome muito cuidado com ela

[20] PÂNICO MORAL | INDÚSTRIAS CULTURAIS


[1] https://www.digitalmentalhealth.group/

[2] https://www.nature.com/articles/d41586-024-01489-4

https://www.nature.com/articles/d41586-024-00902-2


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