Hoje em dia é comum ver pais e mães registrando cada momento dos filhos e publicando em redes sociais.

Muitos pais fazem isso com a intenção de dividir conquistas e momentos fofos ou engraçados de suas crianças com amigos e familiares, especialmente quando estes estão longe.

No entanto, junto com os aspectos positivos vêm preocupações importantes: até que ponto compartilhar a vida dos filhos nas redes é inofensivo e onde começa o risco?

O que é sharenting?

Sharenting refere-se à prática de pais ou responsáveis compartilharem conteúdos sobre seus filhos na Internet – desde imagens de um ultrassom de bebê, fotos do primeiro dia de escola, até relatos do dia a dia da criança.

O termo foi cunhado em 2012 e rapidamente ganhou popularidade conforme mais famílias aderiram às redes sociais (Sharenting: A systematic review of the empirical literature).

Diferentemente de álbuns de fotografias guardados em casa, o sharenting torna público (ou semipúblico) o álbum de família. Essa exposição pode variar de posts ocasionais até casos de “oversharenting”, quando os pais compartilham em excesso detalhes da vida dos filhos.

Pesquisas e descobertas principais sobre o sharenting

Uma pesquisa revela que cerca de 75–80% dos pais que usam redes sociais afirmam já ter postado fotos ou vídeos de seus filhos online (https://www.kaspersky.com.br/resource-center/threats/children-photos-and-online-safety).

Muitas crianças têm presença digital antes mesmo de darem os primeiros passos: uma pesquisa internacional apontou que 81% dos bebês com menos de 2 anos já possuem alguma pegada digital criada pelos pais ( The awareness of sharenting in Italy: a pilot study – PMC ).

No Reino Unido, um estudo estimou que em média os pais publicam 1.500 fotos de um filho até ele completar 5 anos de idade (Sharenting: A systematic review of the empirical literature).

Pesquisadores das áreas de educação, pediatria, psicologia e direito vêm investigando o sharenting sob diversos ângulos.

Uma revisão sistemática recente compilou 61 estudos sobre o tema e identificou seis aspectos centrais: (1) as características do sharenting em si, (2) impactos na privacidade das crianças, (3) o sharenting profissional (como de influenciadores mirins), (4) a perspectiva e sentimentos das próprias crianças sobre serem expostas, (5) fatores que levam os pais a compartilhar e (6) dilemas nas plataformas de mídia social relacionadas a esse hábito ( Sharenting: a systematic review of the empirical literature – IRep – Nottingham Trent University).

Esses dados deixam claro que compartilhar a vida dos filhos na rede se tornou quase uma norma cultural para a geração atual de pais. É um fenômeno em crescimento e multifacetado, com potenciais benefícios e consequências que ainda estamos compreendendo plenamente.

Por que os pais fazem sharenting?

Estudos sugerem que há motivações legítimas e até altruístas por trás das postagens. Muitos pais dizem que compartilhar ajuda a manter laços sociais – envolver avós, tios e amigos no crescimento dos pequenos – e a guardar lembranças de marcos importantes (os primeiros passos, uma apresentação escolar, etc.) ( The awareness of sharenting in Italy: a pilot study – PMC ).

Além disso, as redes fornecem um espaço para trocar experiências e buscar apoio: não é incomum pais recorrerem a comunidades online em busca de conselhos sobre sono do bebê, alimentação ou educação, sentindo-se menos isolados ao perceberem que outros passam pelos mesmos desafios (Tendências do “Sharenting”: pais compartilham muito sobre seus filhos nas mídias sociais? | University of Michigan News).

Há também um componente psicológico: postar fotos dos filhos felizes pode reforçar nos pais a sensação de que estão cumprindo bem seu papel, gerando uma validação social ou um “orgulho de pai/mãe” compartilhado ( The awareness of sharenting in Italy: a pilot study – PMC ).

Por outro lado, vale notar que dois terços dos próprios pais admitem se preocupar com a superexposição dos filhos nas redes.

Consequências negativas do Sharenting

  1. Violação da privacidade e permanência dos dados: Ao publicar detalhes da vida da criança online, os pais expandem a vida privada do filho para um ambiente público. Uma vez na internet, fotos e informações podem ser copiadas e espalhadas sem controle – e podem permanecer acessíveis indefinidamente, mesmo que a postagem original seja apagada . Isso significa que aquela imagem engraçada do seu filho fazendo birra aos 3 anos pode ressurgir quando ele for adolescente ou adulto, fora de contexto e potencialmente constrangedora.
  2. Constrangimento e impacto psicológico futuro: De fato, algumas crianças e adolescentes já expressam incômodo com posts dos pais – um estudo indicou que muitos ficam frustrados ou embaraçados quando os pais divulgam algo sobre eles sem consentimento (Kids to Parents: Don’t Post About Me on Social Media – ABC News). Essa exposição não autorizada pode abalar a relação de confiança entre pais e filhos. Afinal, todos gostamos de ter algum controle sobre nossa própria imagem pública, inclusive os jovens.
  3. Risco de bullying e reputação: Informações ou fotos divulgadas na infância podem ser usadas para intimidar ou zombar da criança posteriormente. Colegas mal-intencionados poderiam achar conteúdos antigos e provocar a criança na escola. Além disso, a criança perde a chance de construir sua própria reputação online no futuro sem interferências, pois sua “história” digital já foi escrita em parte pelos pais.
  4. Uso indevido por terceiros (“digital kidnapping”): Ao postar imagens de menores, há o perigo de pessoas desconhecidas baixarem e reutilizarem essas fotos. Um exemplo extremo é o sequestro digital, em que estranhos pegam fotos de crianças e as repostam fingindo que são seus próprios filhos, criando até perfis falsos para elas. Em casos mais graves, imagens inocentes podem parar em sites de predadores sexuais, sendo repostadas em contextos doentios. Autoridades já alertaram que fotos aparentemente inofensivas (bebê na banheira, criança de maiô) podem ser coletadas por criminosos.
  5. Roubo de identidade e golpes: Informações pessoais reveladas pelos pais – nome completo da criança, data de nascimento, nome da escola, etc. – podem ser combinadas por golpistas para fraudes financeiras ou uso indevido da identidade no futuro. Por exemplo, nos EUA há um mercado clandestino de dados de menores, pois números de documento (como CPF ou equivalentes) “limpos” podem ser usados para abrir crédito fraudulento sem que ninguém perceba até a vítima atingir a maioridade (Constantly posting about your kids online can put their data and privacy at risk : NPR). Assim, aquele post de aniversário com bolo e velinhas pode fornecer pistas (nome e idade exata) que facilitam esse tipo de crime.
  6. Exposição comercial e de dados: Tudo que é publicado sobre uma criança alimenta seu rastro digital. Empresas de tecnologia e corretores de dados podem coletar essas informações para montar perfis de consumo, direcionar publicidade ou mesmo prever aspectos da vida da criança. Em outras palavras, o sharenting também tem um lado de vigilância: a criança pode crescer já sendo “monitorada” por algoritmos, sem nunca ter consentido. Esse uso comercial da imagem e dados dos pequenos levanta questões éticas sobre direitos digitais das crianças.
  7. Excessos e exploração: Em casos extremos, alguns pais cruzam a linha entre compartilhar por conectar-se com outros e explorar a imagem dos filhos por fama ou ganho. Relatos mostram situações em que a busca por curtidas e seguidores leva pais a forçar a criança a participar de vídeos ou ensaios contra sua vontade, ou a expor momentos delicados apenas para gerar conteúdo. Pesquisadores apontam que, nessa perspectiva, o sharenting excessivo pode ser visto até como uma forma de negligência ou abuso, pois prioriza o entretenimento alheio às custas do bem-estar do filho.

É importante frisar que nem toda postagem dos pais resultará em problema – os riscos variam conforme o tipo de conteúdo compartilhado, as configurações de privacidade e outros fatores, ou seja, há espaço para um sharenting consciente, no qual os pais pensam duas vezes antes de postar e envolvem os filhos mais velhos na decisão.

Dicas práticas para um sharenting responsável

Conclusão

  • Pense antes de postar: Pergunte a si mesmo “Eu ficaria confortável se, no futuro, essa foto ou história sobre meu filho estivesse acessível a qualquer pessoa?”. Se houver dúvida, é melhor não postar ou restringir bastante a audiência. Lembre-se de que o que vai para a internet pode se tornar público e permanente.
  • Proteja informações sensíveis: Evite divulgar dados pessoais da criança (nome completo, data de nascimento, endereço, nome da escola, rotina diária). Fotos aparentemente inocentes podem revelar muito – um crachá escolar na imagem, por exemplo, já indica onde seu filho estuda. Quanto menos detalhes identificaríveis, menor o risco de roubo de identidade ou contato de estranhos.
  • Evite fotos constrangedoras ou inapropriadas: Por mais engraçada que seja a foto do seu filho fazendo manha ou sujo de comida, pense se ela pode humilhá-lo algum dia. NUNCA poste fotos de crianças nuas ou sem roupa (mesmo bebês fofos na banheira), nem imagens de acidentes no banheiro, ferimentos, crises de choro ou birras intensas. Esses momentos devem ficar no álbum da família, não no domínio público.
  • Priorize compartilhar conquistas positivas ou situações neutras, e sempre com respeito à dignidade do pequeno.
  • Cheque as configurações de privacidade: Utilize ao máximo os recursos de privacidade das plataformas. Prefira compartilhar fotos dos filhos em grupos fechados ou apenas para contatos próximos, em vez de posts públicos. Evite marcar localização em tempo real.
  • Converse com seu filho (e escute!): Se seu filho já tiver idade para entender (mesmo crianças de 5, 6 anos podem opinar sobre uma foto), explique antes de postar e pergunte o que ele acha. Faça-o sentir que sua opinião importa. Muitos jovens dizem que gostariam que os pais pedissem permissão antes de publicar algo sobre eles. Caso o filho peça para remover uma foto antiga, considere atender o pedido – isso demonstra respeito e fortalece a confiança entre vocês.
  • Estabeleça limites claros com familiares e amigos: Nem todo mundo tem a mesma noção de privacidade. Se você prefere que certas fotos do seu filho não circulem, deixe isso claro amorosamente para os avós, tios ou amigos. Para eventos escolares ou festinhas, alinhe com os outros pais sobre regras de postagem (muitos optam por não expor crianças de terceiros).
  • Curta o momento presente: Não deixe que a ansiedade de compartilhar nas redes roube o momento que você tem com seu filho. Se você está sempre atrás da câmera ou do celular, a criança pode sentir que sua atenção está dividida. Desconecte um pouco: brinque, participe, e tire fotos depois que a memória real estiver bem vivida. Portanto, equilíbrio: há tempo de registrar e tempo de apenas vivenciar, sem nenhuma câmera.

Por fim, é importante lembrar que cada família é única, e não existe fórmula mágica. O que vale é os pais sempre agirem com amor e prudência, colocando o interesse da criança em primeiro lugar.

Para pais que possuem uma fé ou orientação espiritual, essa reflexão ganha um peso especial. Proteger a privacidade e a inocência de uma criança é parte de zelar pela vida que Deus confiou aos pais. Valores bíblicos como moderação, humildade e respeito ao próximo aplicam-se também ao mundo digital: compartilhar sim, mas com sabedoria.

Em Mateus 7:12, Jesus ensina a “fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem conosco” – e isso pode ser traduzido em respeitar nossos filhos hoje da forma que gostaríamos que eles nos respeitassem amanhã.

Referências


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