Lugar de Mulher é online

A violência virtual é um fenômeno que vem crescendo exponencialmente nos últimos anos, impactando a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo.

As mulheres têm sido as mais afetadas. Abusos, assédios e ataques em plataformas digitais colocam em risco mulheres jovens, com identidades interseccionais (como LGBTIQ+, mulheres com deficiências, negras e migrantes), jornalistas, políticas e ativistas.

Nesse artigo vamos explorar os livros “Nobody’s Victim”[1], de Carrie Goldberg,  “Lugar de mulher é online e onde mais ela quiser”[2], de Nina Jankowicz e  alguns estudos da ONU sobre essa temática,  e que oferecem perspectivas sobre essa realidade, fornecendo sugestões de ferramentas de resistência e proteção para as vítimas.

Uma Realidade Alarmante: Dados Sobre Violência Online

Estatísticas mostram que a violência digital é um problema que está longe de ser resolvido. Um estudo realizado pela ONU Mulheres revelou que cerca de 73% das usuárias da internet já experimentaram algum tipo de violência online, variando de mensagens abusivas a ameaças de morte. A pesquisa também indicou que mulheres entre 18 e 24 anos são mais vulneráveis ao assédio sexual digital, à perseguição e a abusos baseados em imagens, como a distribuição não consensual de nudes (chamada frequentemente de vingança pornográfica)[3].

Goldberg, em “Nobody’s Victim”, compartilha várias histórias de clientes que sofreram de forma devastadora com esses tipos de ataques. Ela relata como o impacto vai além da esfera digital, afetando a saúde mental e a vida social das vítimas, muitas vezes resultando em depressão, ansiedade e abandono do ambiente online. Para muitas mulheres, o assédio na internet não é apenas um aborrecimento – é um perigo real.

Falhas das Plataformas e do Sistema Legal

Nina Jankowicz, em “Lugar de mulher é online e onde mais ela quiser”, enfatiza as limitações das plataformas digitais em fornecer segurança às usuárias. Redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram falham rotineiramente em aplicar suas próprias políticas contra conteúdo abusivo, enquanto sistemas de denúncia automáticos frequentemente ignoram relatos de vítimas ou demoram a agir. Isso reflete uma falta de prioridade em relação ao bem-estar das usuárias, permitindo que os agressores continuem impunes.

Carrie Goldberg reforça essa crítica ao compartilhar como o sistema legal também é inadequado. Nos Estados Unidos, apesar dos avanços em legislações contra crimes como “revenge porn”, o processo legal ainda é lento e burocrático, muitas vezes colocando a vítima em uma posição desconfortável e vulnerável. Segundo Goldberg, os desafios jurídicos para condenar agressores digitais ainda são enormes, e as vítimas precisam lutar intensamente para serem ouvidas. Isso também é verdade em outros países, onde a legislação sobre crimes cibernéticos é insuficiente ou mal aplicada.

Os efeitos do assédio virtual são devastadores e vão além do impacto imediato das ameaças e insultos. Muitas mulheres relatam abandonar suas atividades nas redes sociais ou limitar sua presença online para evitar ataques, o que reduz suas oportunidades de expressão, trabalho e conexões sociais. Isso, na prática, é uma forma de silenciamento e exclusão das mulheres do debate público.

Entretanto, tanto Goldberg quanto Jankowicz oferecem caminhos de resistência. Goldberg destaca como as vítimas podem recorrer a suporte legal especializado e lutar para levar os agressores à justiça, enfatizando a importância da persistência e da busca por justiça. Jankowicz, por sua vez, reforça a importância da solidariedade e de criar redes de apoio, incentivando as mulheres a não se retirarem do ambiente online, mas a se fortalecerem mutuamente para enfrentar os haters e a desinformação.

A Importância da Educação e Políticas de Prevenção

Para combater efetivamente a violência online, é necessária uma abordagem multifacetada. As plataformas digitais precisam ser mais transparentes e responsáveis em relação à aplicação de suas políticas de combate ao abuso. Além disso, é essencial que governos atualizem e fortaleçam suas legislações para proteger as vítimas de crimes cibernéticos de maneira mais eficaz.

A educação também é uma ferramenta poderosa para a prevenção do assédio online. Conscientizar crianças e adolescentes desde cedo sobre os efeitos dos comportamentos abusivos e ensinar sobre responsabilidade digital pode ajudar a mitigar o problema. Assim, é possível criar um ambiente onde as mulheres possam usufruir dos benefícios da internet e exercer plenamente seus direitos de expressão e participação pública.

O Papel das Escolas e Educadores na Prevenção da Violência Online

Escolas e educadores têm um papel crucial na prevenção e combate à violência online, já que os estudantes, em sua maioria, são grandes usuários da internet e das redes sociais. É comum ouvir sobre casos de abuso online ocorrendo entre colegas de classe, o que reforça a necessidade de que educadores estejam preparados para lidar com essas situações de forma eficaz. As escolas devem promover a conscientização sobre os riscos do ambiente digital e ensinar boas práticas de segurança online, além de identificar e intervir em casos de assédio virtual.

Capacitar professores e profissionais da educação para reconhecer sinais de violência online e oferecer apoio às vítimas é fundamental. Isso inclui a criação de programas de educação digital que abranjam tópicos como empatia, respeito e responsabilidade online, ajudando a criar uma cultura de respeito e inclusão. Além disso, o diálogo aberto com os estudantes pode encorajá-los a compartilhar experiências de abuso, garantindo que as vítimas não se sintam sozinhas e que recebam o apoio necessário. Dessa forma, as escolas podem ser um ambiente seguro tanto no mundo físico quanto no digital, contribuindo para a formação de cidadãos conscientes e responsáveis.

O Papel das Igrejas no Apoio às Vítimas de Abusos e Assédio Online

As igrejas podem desempenhar um papel fundamental no apoio às vítimas de abuso e assédio online, oferecendo um ambiente seguro e acolhedor para quem está passando por essas situações. Primeiro, as igrejas devem promover a conscientização sobre a violência online, discutindo abertamente o problema durante reuniões e cultos. Ao falar sobre o tema, as igrejas ajudam a reduzir o estigma associado ao abuso e encorajam as vítimas a buscarem ajuda.

Além disso, a igreja pode oferecer suporte emocional e espiritual, fornecendo aconselhamento pastoral e orientando as vítimas sobre onde procurar apoio profissional, como psicólogos e advogados. A criação de grupos de apoio, onde vítimas possam compartilhar suas experiências e encontrar solidariedade, também é uma maneira eficaz de ajudar a restaurar a confiança e o bem-estar emocional das pessoas afetadas.

Outra iniciativa importante é capacitar líderes religiosos e membros da igreja para identificar sinais de abuso online e oferecer ajuda prática. Isso inclui educar os líderes sobre como lidar com denúncias e incentivar uma postura de acolhimento e empatia. A igreja também pode se envolver em campanhas como a do  “quebrandoosilencio.org” que promovam o uso seguro da internet e incentivem o respeito e a dignidade no ambiente digital.

Dicas para os Pais Lidarem com Abuso Online

  • Ouvir sem julgamentos é fundamental para que a vítima se sinta acolhida e segura.
  • Coletar evidências do abuso, como capturas de tela e registros das mensagens, para que possam ser usadas em possíveis ações legais.
  • Incentivar a vítima a não responder diretamente aos agressores ou vingar-se, mas buscar apoio dos familiares ou de um profissional da área jurídica.
  • Denunciar o caso às plataformas e, se necessário, às autoridades competentes.
  • Manter um diálogo aberto sobre o uso seguro da internet e estabelecer limites para ajudar a prevenir novas situações de abuso.
  • Procurar informações sobre o tema e educar-se sobre segurança digital para estar mais preparado para proteger os filhos.

Dicas e Medidas de Prevenção

  1. Utilizar Configurações de Segurança: Faça o melhor uso das configurações de segurança disponíveis em seus dispositivos digitais. Isso inclui ativar autenticação em duas etapas e definir restrições de privacidade nas redes sociais.
  2. Manter Senhas Fortes: Certifique-se de que suas senhas sejam fortes, evitando informações pessoais, e as mantenha seguras. Além disso, troque suas senhas regularmente.
  3. Cuidado ao Compartilhar Informações: Limite a quantidade de informações pessoais que você compartilha em seus dispositivos e perfis online. Considere usar um pseudônimo em vez do seu nome verdadeiro em ambientes que possam expô-la a riscos.
  4. Não Compartilhar Imagens Íntimas: Evite compartilhar imagens íntimas ou vídeos de si mesma ou de amigos, especialmente se não houver consentimento explícito. Uma vez que uma imagem é compartilhada, ela pode ser muito difícil de controlar.
  5. Revisar Privacidade nas Redes Sociais: Configure você mesma os seus perfis de redes sociais e revise as permissões de privacidade. Mantenha suas postagens visíveis apenas para pessoas que você conhece e confia.
  6. Cuidado com as Redes: Transmita informações sensíveis somente quando estiver conectada a redes conhecidas e seguras. Evite compartilhar detalhes privados em redes públicas.
  7. Mantenha Software Atualizado: Atualize sempre seus softwares e aplicativos, pois atualizações geralmente corrigem falhas de segurança.
  8. Não Utilize Email Pessoal para Redes Sociais: Evite usar seu email pessoal para criar perfis de redes sociais, já que isso pode facilitar a sua identificação.
  9. Verificar Regularmente: Faça buscas regulares na internet sobre seu nome para monitorar se informações pessoais foram expostas.

Medidas de Resposta em Caso de Ciberviolência

  1. Bloquear Comunicação: Evite mais comunicação com o agressor. Utilize ferramentas da plataforma para bloquear o contato.
  2. Guardar Evidências: Guarde todas as evidências possíveis dos incidentes de ciberviolência, como capturas de tela, mensagens ou registros de chamadas. Esses dados podem ser úteis para denunciar o agressor às autoridades competentes.
  3. Buscar Suporte: Converse com alguém de sua confiança sobre o que está acontecendo. Além disso, procure apoio de um conselheiro profissional ou busque orientação legal se necessário.
  4. Denunciar o Caso: Entre em contato com as autoridades policiais quando necessário e denuncie o abuso também nas plataformas digitais. As denúncias ajudam a frear os comportamentos abusivos e protegem outras pessoas.
  5. Quem foi ou está sendo vítima de algum tipo de violência de gênero tem direito a informações e atendimento nos órgãos públicos de saúde, segurança pública e justiça, em especial nos serviços especializados no atendimento a mulheres, como o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) e o Disque 100 (Disque Direitos Humanos). As denúncias também podem ser feitas em delegacias comuns, delegacias eletrônicas, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs).
  6. Diversas iniciativas da sociedade civil dão suporte às vítimas e cobrar providências do Estado. Entre elas, a SaferNet Brasil (safernet.org.br), o projeto Justiceiras (justiceiras.org.br) e o Mapa do Acolhimento (mapadoacolhimento.org).

Conclusão

Um ambiente digital mais seguro exige esforços culturais, legais e tecnológicos, para que todas as pessoas possam se expressar sem medo de assédio ou repressão. A mensagem de Carrie Goldberg e Nina Jankowicz nos lembra que, embora o caminho seja desafiador, é necessário e vale a pena ser trilhado, especialmente quando buscamos justiça, compaixão e segurança para todos.

Referências

Curso Segurança e Cidadania Digital em Sala de Aula. https://ead.safernet.org.br/cursosegurancaecidadaniadigital/


[1] Goldberg, Carrie. Nobody’s Victim: Fighting Psychos, Stalkers, Pervs and Trolls (p. 95). Little, Brown Book Group.

[2] Jankowicz, Nina. Lugar de mulher é online e onde mais ela quiser: Como identificar e enfrentar assédios e ataques virtuais e dar o troco nos haters (Portuguese Edition) (p. 6). Vestígio Editora.

[3] https://www.unwomen.org/en/news/stories/2015/9/cyber-violence-report-press-release


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