Filmes: Parábolas Modernas

Os avanços tecnológicos e digitais das últimas décadas e a consequente mudança comportamental da sociedade, tem exigido que as organizações desenvolvam novas formas de atrair e reter seus clientes.  Isso não tem sido diferente para organizações religiosas, principalmente aquelas que ultimamente têm percebido o número dos seus fiéis reduzir.

Nesse artigo exploro resumidamente a questão dos filmes como uma possível ferramenta para ajudar a missão das igrejas na atualidade. O crescimento do número de “desigrejados”, pessoas que não reconhecem a relevância de pertencer a uma igreja, tem nos estimulado a experimentar novos métodos de comunicação, e os filmes surgem nesse cenário como uma proposta promissora.

Os filmes podem ter várias utilidades para as igrejas. Eles servem para traduzir  as verdades milenares do cristianismo numa linguagem mais atual e servem de parábolas modernas para as gerações de cultura audiovisual que são facilmente atraídas por estórias.  Além disso, os filmes também podem ser usados como método de evangelismo e argumento para o diálogo com a sociedade.

Apesar de experiências recentes demonstrarem a eficácia dos filmes para a missão das igrejas, alguns pontos importantes precisam ser considerados. Para que os filmes sejam efetivos é necessário que combinem os elementos artísticos e cinematográficos com a visão teológica,  e que as igrejas os utilizem de forma estratégica. Nesse artigo exploraremos apenas o aspecto teológico e deixaremos o estratégico para outro.

Os Filmes como Parábolas Modernas

Ao longo dos anos, tem havido uma forte tensão entre os filmes e igrejas cristãs de várias denominações (Forbes & Mahan, 2017). Enquanto algumas igrejas veem nos filmes uma oportunidade para expandir seu relacionamento com a sociedade, muitas outras têm combatido e advertido sobre os riscos e efeitos negativos.  Apesar dessa diversidade de opiniões, alguns autores destacam alguns pontos positivos. 

Brown (2013) afirma que os filmes são capazes de promover  valores e crenças que estimulam o crescimento intelectual e espiritual. Ele acredita que os filmes são processados pelas pessoas como as  parábolas de Cristo e podem tanto criar um diálogo sobre o cristianismo (evangelismo) quanto promover a educação cristã (nutrir o rebanho). Com exemplo ele cita o filme A Paixão de Cristo (2014), em que milhões de pessoas alteraram algumas crenças religiosas pré-existentes por causa do conteúdo do filme.

Jump (2002) também comparou as possibilidades religiosas do filme às parábolas de Jesus. Para o reverendo, os filmes que têm valor para a educação religiosa são aqueles que retratam a verdade como a parábola do Bom Samaritano a retrata. A história pode ser dramática, contemporânea, emocionante em caráter e até imaginar elementos negativos, como crime, acidente, ignorância e pecado, mas no final é necessário mostrar o triunfo da verdade sobre o erro, as recompensas do comportamento positivo e a punição das atitudes negativas.

Ao considerar os filmes como parábolas modernas também  precisamos aceitar que eles estão sujeitos a algumas limitações. As parábolas de Jesus eram narrativas breves, dotadas de um conteúdo alegórico, utilizadas nas pregações e sermões com a finalidade de transmitir ensinamento (Andrew, 1912). Nos tempos de Jesus nem sempre a audiência compreendia suas analogias e, portanto, era necessário uma explicação adicional (Mateus 13:10-16). Da mesma forma, os filmes podem exigir estratégias específicas para que a audiência consiga extrair seu real sentido teológico e espiritual.

Para que os filmes atuem com eficácia semelhante às parábolas de Jesus é também essencial que apresentem coerência com a teologia bíblica. As parábolas de Jesus eram alinhadas aos demais ensinos da Bíblia. Ainda que alguns elementos metafóricos apontassem para uma aparente divergência, como na parábola do Homem rico e Lázaro (Lucas 16:19-31),  a essência da mensagem  que Jesus desejava transmitir estava em conformidade com a teologia bíblica (Andrews, 1890). No entanto, harmonizar a teologia com os filmes é um desafio e uma constante preocupação.

Os Filmes e a Teologia

Desde a invenção do cinema, as igrejas têm assumido várias posturas com relação aos filmes (recusa, cautela, diálogo, apropriação e encontro com o divino). Embora nos tempos atuais exista uma certa aceitação e otimismo no uso, é necessário um senso crítico para distinguir que nem todos filmes com temática religiosa cristã têm coerência teológica (Johnston, 2006).

Tatum (2004) defende que os filmes com temática cristã precisam manter a harmonia em quatro aspectos: artística, literária, histórica e teológica. O autor considera que existem diversos filmes sobre Jesus que seguem rigorosamente a maioria dessas dimensões, mas falham no aspecto teológico. Por exemplo, em alguns filmes Jesus é detalhadamente representado como uma pessoa boa ou um mestre sábio que viveu na Judeia séculos atrás, mas seu aspecto divino é ignorado. Para Lindvall (2011), esse tipo de representação de Jesus perde o propósito teológico principal, isto é, demonstrar Jesus como um salvador pessoal, a resposta vital para os problemas e necessidades humanas.

A jornada do herói é um outro aspecto em que os filmes sem viés religioso usualmente entram em conflito com a teologia cristã. No cristianismo a jornada do herói usualmente inicia com a vida de pecado, avança para o arrependimento e finalmente o retorno ou conversão. Essa jornada espiritual é semelhante a vida de Saulo, o perseguidor,  no caminho de Damasco. O personagem recebe um chamado divino que irá transformar radicalmente sua vida. Então, ele abandona sua antiga vida e inicia uma nova trajetória. A maioria dos filmes atuais, no entanto, rejeita esse caminho e explora alternativas que exaltam positivamente o erro, as paixões e fraquezas humanas (Lindvall, 2011). 

Lindval (2011) alerta que essas narrativas teologicamente incoerentes com o texto bíblico produzem efeito negativo na audiência, principalmente para aqueles que não tem conhecimento experimental da Bíblia. Para esses os filmes se tornam a única verdade conhecida e moldarão suas opiniões a partir do que assistiram.

Vários pesquisadores concordam que os temas espirituais e teológicos estão cada vez mais presentes em filmes de vários gêneros. Berger (2016) comenta que em tempos mais recentes, “Hollywood produziu filmes para audiências de massa sem ocultar a mensagem religiosa, tais como ‘Ben Hur’ e ‘Os Dez Mandamentos’. Para Brown (2013)  “a maioria do entretenimento tem alguma visão filosófica ou religiosa do mundo embutida em seu conteúdo… a questão importante não é se um determinado filme está dizendo algo sobre valores e crenças transcendentes, mas sim o que ele está ensinando”.

Para lidar com a realidade das incoerências teológicas dos filmes Horner (2010) sugere a estratégia dos 4 D’s: “discernir, dividir, decidir e desenvolver”. Precisamos discernir os erros que nos cercam, dividir ou separar completamente esses erros da verdade tão frequentemente emaranhada nela, decidir como responder praticamente, e então desenvolver o que decidimos fazer de forma correta.

No entanto,  para que um filme possa ter utilidade redentiva, além da coerência teológica ele também necessita ser utilizado da maneira correta. Para isso, é importante o desenvolvimento de estratégias que produzam o resultado desejado pelas igrejas. Algumas, experiências do passado exemplificam como as igrejas podem usar os filmes na atualidade. Mas, esse tema deixaremos para um outro artigo.

Conclusão

A igreja da atualidade enfrenta desafios que exigem a inovação de métodos e abordagens. Um número crescente de cristãos reconhece que os filmes podem ser um poderoso instrumento para captar a atenção de uma sociedade ocupada e muito agitada. Acreditam que, para que a igreja mantenha sua influência na sociedade e continue a se relacionar com seus próprios membros, principalmente sua juventude, ela deve usar criativamente os filmes em seus vários ministérios.

No entanto, embora seja uma realidade que os filmes estejam sendo mais utilizados nas igrejas, eles também estão sendo mal utilizados. Sally Morgenthaler, consultora do  Emerging Church movement, alerta que atualmente os “congregantes estão procurando a Luz (light), mas em vez disso estão sendo tratados para cultuar de forma leve (lite)” (Johnston, 2006). Isso indica que a qualidade do diálogo entre a igreja e os filmes precisa melhorar.

Para que as igrejas usufruam de toda potencialidade dos filmes é necessário que saibam selecionar  filmes coerentes com a sua teologia e que estejam dispostas a desenvolver estratégias inovadoras de complementação do conteúdo. Os filmes podem ser usados como parábolas modernas, mas é essencial ampliar e esclarecer o sentido das mensagens por meio de ações que levem o espectador a se conectar com a igreja.

Referências

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Andrews, J. (1891). The Rich man and Lazarus. Review and Herald.

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Barsotti, C., Jonhston. R (2014). Finding God in the movies. Baker Publishing Group.

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Brown, W. (2013). Sweeter than honey: Harnessing the power of entertainment. Brown, Fraser & Associates. Kindle Edition. ASIN: B00G1S2YPO

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Horner, G. (2010). Meaning at the Movies: Becoming a Discerning Viewer. Crossway. ISBN: 978-1-4335-2401-1

Johnston, R.K. (2006). Reel spirituality: Theology and film in dialogue.  2nd edition. Grand Rapids, MI: Baker Academic. ISBN-13: 978-0801031878

Jump, H. (2002). The Religious Possibilities of the Motion Picture. Film History, 14(2), 216-228. Retrieved November 10, 2020, from http://www.jstor.org/stable/3815624

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Tatum, W.B. (2004). Jesus at the Movies: A guide to the first hundred years 3rd edition. Farmington, MN: Polebridge Press. ISBN-13: 978-1598151169

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