Hollywood e o fim do mundo

A indústria cinematográfica de Hollywood tem a finalidade de produzir filmes que magnetizem a atenção das pessoas. Embora, o interesse principal seja gerar lucro, a disseminação de conceitos que influenciem a sociedade também faz parte dos objetivos. Os críticos do cinema são frequentes em afirmar que os produtores de filmes estão longe de ser ingênuos e tem uma visão muito clara da visão de mundo que querem transmitir[1].

Talvez seja por esses motivos que os filmes apocalípticos são tão populares. Eles estão entre os que levam mais pessoas aos cinemas e são campeões de bilheteria[2]. Esse fato revela que Hollywood tem pregado mais sobre o fim do mundo que as igrejas cristãs. O problema é que isso está sendo feito com uma teologia que duela com as igrejas.

Os filmes apocalípticos além de entreter com seus efeitos especiais, também desafiam a igreja e sua teologia. Um típico filme sobre o fim do mundo geralmente tenta rejeitar tanto as abordagens convencionais sobre a vida e suas soluções quanto tenta reformular as ideias cristãs sobre o apocalipse[3].

Basicamente existem dois grupos de filmes sobre o fim do mundo: os pré-apocalípticos e os pós-apocalípticos. Os pré-apocalípticos são mais frequentes e geralmente descrevem eventos que ameaçam a vida futura do planeta. Os pós-apocalípticos lidam com os eventos depois da destruição do mundo que conhecemos.

Nos filmes pré-apocalípticos as ameaças ao planeta podem ser diversas: asteroides em rota de colisão com a Terra, invasão de alienígenas ou zumbis, desequilíbrio ecológico, epidemias, anomalia cósmica, etc. Para evitar a destruição, Hollywood geralmente mostra que é necessário usar o máximo da genialidade e tecnologia humanas. A humanidade é capaz de resolver os problemas do mundo e superar os desafios da existência. Ainda que muita gente tenha que morrer, a vida prossegue. Isso é o que a maioria dos filmes pré-apocalípticos sugerem.

A secularização do mal

Nos filmes apocalípticos a origem do mal não é satânica. O mal é apenas uma ameaça causada pelo próprio ser humano ou por obra do acaso. A origem desse mal muda com o tempo. Por exemplo, nos anos 60 os filmes apresentavam o fim do mundo como consequência de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e a União Soviética. Na década de 80 e 90 os Ovnis foram bastante responsabilizados pela destruição. Na proximidade do ano 2000 foram enfatizadas as profecias de Nostradamus e dos Maias, assim como o arrebatamento secreto. Recentemente as principais causas tem sido o aquecimento global, a superpopulação, vírus e epidemias.

Um Deus ausente

Para Hollywood, Deus também não está presente no processo do fim do mundo,  mas sim as causas naturais aceleradas pela estupidez humana. Quando Deus é citado num filme apocalíptico, geralmente é retratado como um ser impessoal e ausente.  Na visão bíblica do Apocalipse, os justos são salvos da destruição final. Mas,  na versão de Hollywood, bons e maus são tratados da mesma forma. Não é tão importante ser moralmente correto, o que vai salvar a humanidade é a genialidade e heroísmo unidos com a tecnologia. 

Hollywood e a teologia cristã

Pesquisas tem concluído que a frequência em que alguns temas aparecem nos filmes tem sido capazes de alterar as crenças e atitudes da sociedade sobre temas como gênero, sexualidade, raça e etnia, preferências políticas, incluindo crenças teológicas e  espiritualidade[4].

Prova desse efeito negativo dos filmes é que até mesmo os cristãos estão substituindo a visão bíblica tradicional do Apocalipse pela de Hollywood. As igrejas estão tendo dificuldade para falar da visão bíblica de que a destruição final faz parte dos planos de justiça de um Deus Todo-poderoso para eliminar o mal do mundo. Boa parte dos cristãos parece gostar do mundo em que vivem, por isso falar de um fim iminente soa como algo incoerente.

Exceto em alguns grupos religiosos, geralmente falta uma verdadeira consciência apocalíptica no pensamento cristão contemporâneo. A voz escatológica da igreja cristã ficou muda. Normalmente, se acredita que o fim dos tempos virá, mas isto não é pregado ou ensinado com a mesma frequência que outras doutrinas. As igrejas estão ocupando seus púlpitos para ajudar as pessoas a viverem cristãmente. As mensagens focam no cuidado com os necessitados, na atenção à família, na fidelidade dos casais e outras atitudes que se espera de cada cristão. Mas, segundo Johnston (2006) no excesso desse processo o cristianismo perdeu algo: a história do conflito final ficou faltando.

Confusão teológica

Outro motivo que leva Hollywood ganhar mais adeptos para sua versão do fim do mundo é que os cristãos possuem cada vez menos conhecimento sobre a Bíblia e cada vez mais dúvidas.  A variedade de denominações e as maneiras diferentes de interpretar a escatologia bíblica tem causado grande confusão [5]. Uma pesquisa realizada em 2016 constatou que uma das cinco razões que levou as pessoas a abandonarem o cristianismo foi a  “confusão teológica dentro do cristianismo”[6].

Teologia ou ficção?

Até que ponto deveríamos dar importância ao que Hollywood diz sobre o fim do mundo se entendemos que os filmes são entretenimento e ficção?  A resposta é que, ainda que não consigamos explicar com exatidão o efeito dos filmes, não podemos negar que aquilo que assistimos, de alguma forma, pode influenciar o que pensamos.

Quando alguém não possui uma sólida convicção a respeito do fim do mundo, a versão dos filmes de Hollywood pode ocupar esse espaço e,  mais tarde, esse conceito será defendido como uma verdade e será cimentado na convicção pessoal. Os teóricos do assunto chamam isso de Teoria do Cultivo[7].

Conclusão

Os filmes podem ser mais uma ferramenta para os cristãos iluminarem o mundo com uma mensagem que dá sentido para os fenômenos e eventos apocalípticos da atualidade, mas também esperança de um futuro melhor. Mas, para isso as igrejas precisam assumir o protagonismo da narrativa.

Para saber mais sobre o que a Bíblia ensina sobre o fim do mundo, acesse http://ofimdomundo.com.br


[1] HERNANDEZ, E. A. Using Cultivation Theory to analyze college student attitudes about the dating process following exposure to romantic films. Texas: Tech University, 2012.
JOHNSTON, R.K. (2006). Reel spirituality: Theology and film in dialogue.  2nd edition. Grand Rapids, MI: Baker Academic. ISBN-13: 978-0801031878LINDVALL, T. & QUICKE, A. (2011). Celluloid sermons: The emergence of the Christian film industry, 1930-1986. New York: New York University Press. ISBN-13: 978-0814753248

[2] Apocalipse 20: uma breve história da doutrina milenarista. https://unasp.emnuvens.com.br/kerygma/article/download/1222/1179

[3] LIPKEA, Michael, Why America’s ‘nones’ left religion behind, Disponível em:

[4] MARONI, B. Cristianismo e cultura pop (p. 6). Edição do Kindle.

[5] Top 20 Highest Grossing Post Apocalyptic Movies:  https://www.imdb.com/list/ls051539512/

[6] JOHNSTON, R.K. (2006). Reel spirituality: Theology and film in dialogue.  2nd edition. Grand Rapids, MI: Baker Academic. ISBN-13: 978-0801031878

[7] HERNANDEZ, E. A. Using Cultivation Theory to analyze college student attitudes about the dating process following exposure to romantic films. Texas: Tech University, 2012.

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