Como as telas podem viciar você

A crise do Covid-19 antecipou o futuro da tecnologia digital e trouxe para o presente alguns problemas que precisamos nos apressar para resolver ou amenizar.  Os efeitos colaterais dessa aceleração digital são percebidos nos sintomas visíveis do vício em telas ou de Internet.

Nesse artigo tento ajudar pais e educadores preocupados em reconhecer esse tipo de vício, como evita-lo ou trata-lo.

O que é o vício em telas

O vício geralmente envolve o uso de substâncias que provocam a dependência ou a repetição excessiva do uso. A sensação e prazer gerados pela droga podem fazer a pessoa perder o interesse pela família, estudos, emprego, cuidado pessoal e etc.  Apesar de não estar associado ao uso de substâncias químicas, o vício em telas ou Internet tem efeito semelhante ao das drogas. A diferença é que as drogas podem ser os jogos, as compras compulsivas online, a pornografia, as redes sociais e etc.

O Phubbing compromete as relações entre amigos. Imagem: Shutterstock

Vício e Redes Sociais

Vários especialistas têm alertado para o crescimento de doenças como a FOMO (Fear of Missing Out) ou Nomofobia que é o medo de perder algo. Essa é uma patologia psicológica que se produz pelo medo a ficar fora do mundo tecnológico ou a não se desenvolver ao mesmo ritmo que a tecnologia. Presume-se que as pessoas com a FOMO têm um desejo maior de se manterem continuamente atualizadas sobre o que os outros estão fazendo.[1] Acredita-se que dois terços do total de usuários das redes sociais no mundo padecem de FOMO[2].

As pesquisas também mostram que o comportamento de Phubbing é mais frequente em quem sofre de FOMO. Phubbing é o ato de ignorar ou deixar de conversar com alguém por estar focado no celular. O termo vem da junção das palavras phone (celular) e snubbing (esnobar). Esse comportamento, quando frequente, compromete relações conjugais e entre amigos[3].

A depressão também aparece relacionada ao vício em redes sociais em várias pesquisas. A pessoa deprimida pode buscar nas redes sociais uma forma de escape e isso pode intensificar a doença (afastamento social, privação de sono, etc). No sentido oposto, o tempo excessivo e o uso comparativo nas redes sociais pode contribuir para a depressão.[4]

Quase metade (45%) dos jovens entre 18 e 24 anos disse que checa notificações de mídias sociais no meio da noite.

Delloite
As plataformas tem interesse em viciar os usuários. Imagem: Shutterstock

Os negociadores das drogas

O vício em telas é um efeito que surge a longo prazo. Ninguém se torna viciado acessando uma única vez. Para que o vício ocorra, a pessoa precisa ser condicionada durante um longo período de tempo para que fique presa a um padrão de comportamento habitual que ela não pode mais controlar. Por isso, seria injusto responsabilizar apenas o dependente. Embora a decisão pelo uso seja pessoal, quem oferece a droga também tem parte da culpa.

As plataformas da Internet (redes sociais, jogos online, streaming de filmes, etc) são criadas para produzir experiências prazerosas e habituar o usuário a usa-las com frequência. Vários mecanismos (notificações, recompensas, status, reputação, pontos, descontos, etc) são criados para incentivar o usuário a voltar e a usar o máximo de tempo possível [5].   

As plataformas da Internet têm interesse em criar o vício nas pessoas. Quanto maior a frequência e o tempo gasto, maior será ao lucro com a venda de anúncios e informações sobre o comportamento do usuário.

Nessa batalha, pais e educadores estão em desvantagem. Sua defesa é instruir os mais jovens sobre os efeitos negativos da exposição exagerada e mostrar a relevância de outros tipos de atividades. Desenvolver neles a capacidade de reconhecer o impacto positivo e negativo é o que permitirá lidar com as mídias de maneira mais positiva e consciente. É necessário ensina-los como controlar a tecnologia para que ela não os controle.

Oito em cada dez brasileiros entre 9 e 17 anos (85%) são usuários ativos da Internet

Cetic.br

Vício em jogos online

O vício em jogos ou Internet Gaming Disorder (IGD) está na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) e foi anunciada oficialmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2019, para entrar em vigor em janeiro de 2022.

A IGD é definida como uma síndrome clinicamente reconhecível e clinicamente significativa, quando o padrão de comportamento do jogo for de tal natureza e intensidade que resulte em angústia acentuada ou em deficiência significativa no funcionamento pessoal, familiar, social, educacional ou ocupacional [6]. A IGD é comparável à dependência de substâncias químicas. As pessoas com IGD persistem nos jogos, independentemente dos efeitos prejudiciais [7].

Os parentes próximos precisam ficar atentos ao comportamento do jogador.  Geralmente o viciado é alguém que gasta muitas horas diárias nessa atividade, recusa-se a fazer outras atividades, deixa de cuidar da higiene pessoal, prefere jogar a se alimentar, apresenta mudanças no comportamento (angústia, ansiedade) e quando não consegue jogar manifesta a síndrome de abstinência[8].

Celso Arango, vice-presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, afirma que em seu consultório, o vício em videogames já é o segundo mais tratado depois da maconha, no caso dos adolescentes[9].

Pais e educadores tem um grande desafio. Imagem: Shutterstock

Como reconhecer o vício

O vício em telas pode ter várias origens, como:  familiar (algum problema na família serve como gatilho), social (convive-se com outros viciados), emocional (alguma doença que leva a buscar uma fuga da realidade) e etc.  

Para ser considerada viciada em Internet a pessoa precisa apresentar pelo menos 5 dos 8 sintomas abaixo:

  1. Preocupação excessiva com a Internet
  2. Necessidade de aumentar o tempo conectado (on-line) para manter a satisfação
  3. Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da Internet
  4. Apresentar Irritabilidade e/ou depressão
  5. Quando o uso da Internet é restringido, apresenta labilidade emocional (Internet como forma de regulação emocional)
  6. Permanecer mais tempo conectado (on-line) do que o programado
  7. Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo
  8. Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas conectadas

Existe um teste online que mede o grau de dependência: https://dependenciadeinternet.com.br

50% dos pais são autocríticos: reconhecem que também usam muito seus telefones celulares.

Deloitte

Como tratar o vício

Para os viciados em Internet, redes sociais, jogos eletrônicos e em todo tipo de tela, a abstenção causa sofrimento e alguns sintomas que podem ser diferentes para cada pessoa. Para algumas pessoas parece haver uma espécie de período de “desintoxicação” de 3-4 dias em que os sintomas são mais graves. Os sintomas de abstinência podem durar várias semanas ou meses. Com o abandono da tela e por meio do desenvolvimento de um programa de recuperação, os sintomas desaparecem com o tempo.

É preciso tempo para o cérebro se recuperar do que fizeram com ele: o uso excessivo, a privação de sono, e o isolamento social. De qualquer forma, a pessoa precisará de uma avaliação do psiquiatra.

No tratamento para vício em telas, acima de tudo, é fundamental introduzir hábitos saudáveis na vida do paciente. Isso para que a pessoa possa desapegar da necessidade de recompensa e encontre essa gratificação em outra atividade. Incentivar a prática de exercícios físicos, uma alimentação saudável e, principalmente, relacionamentos em que haja afeto e confiança, são as melhores formas de evitar que haja recaídas no futuro [10].

As crianças aprendem mais pelo exemplo que pelas palavras. Imagem: Shutterstock

Conclusão

Todos nós buscamos algum prazer nas mídias de tela, mas não queremos ser viciados por elas. Para isso precisamos ser intencionais no uso para perceber os riscos e evitar os excessos. Lembrando que esse limite para cada pessoa pode ser diferente.

Evitar o vício é extremamente importante. Uma vez viciado, será muito difícil se libertar. A tecnologia digital tem a dualidade de ser boa ou má, dependendo do uso que se faz. Se de um lado ela aproxima as pessoas que estão mais distantes, por outro ela pode criar um distanciamento onde não havia. O problema é quando a pessoa não consegue mais se controlar à exposição, então ela vai trocar o tempo com amigos, familiares e outras atividades importantes pelo tempo no mundo virtual.

Encham a mente de vocês com tudo o que é bom e merece elogios, isto é, tudo o que é verdadeiro, digno, correto, puro, agradável e decente.

Apóstolo paulo – filipenses 4:8

Leituras adicionais

Alter, A. (2017). Irresistible: The rise of addictive technology and the business of keeping us hooked. New York, NY: Penguin Press.

Potter, W. James. Media Literacy (p. 283). SAGE Publications. Edição do Kindle.

Como combater o vício em tecnologia. Abstinência ou resiliência. https://www.semprefamilia.com.br/virtudes-e-valores/como-combater-o-vicio-em-tecnologia-abstinencia-ou-resiliencia/

Nomofobia: 10 sinais de que você está “viciado” em internet. https://blog.nossospsicologos.com.br/nomofobia-vicio-em-internet/

Como proceder com o tratamento para vício em jogos online? https://bit.ly/2D6IqHL

Pesquisa da Deloitte detalha uso de smartphones; oito em cada dez brasileiros estouram pacote de dados. https://www2.deloitte.com/br/pt/footerlinks/pressreleasespage/Global-Mobile-Consumer-Survey.html#


[1] Fear of Missing Out as a Predictor of Problematic Social Media Use and Phubbing Behavior among Flemish Adolescents. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6211134/

[2] O Transtorno do Vício em Internet. https://canaltech.com.br/comportamento/O-Transtorno-do-Vicio-em-Internet/

[3] Phubbing e nomofobia: os comportamentos do mundo digital.  https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,phubbing-e-nomofobia-os-comportamentos-do-mundo-digital,70001931091

[4]Does Social Media Cause Depression?  https://www.scientificamerican.com/article/does-social-media-cause-depression/
Boers E, Afzali MH, Newton N, Conrod P. Association of Screen Time and Depression in Adolescence. JAMA Pediatr. 2019;173(9):853–859. doi:10.1001/jamapediatrics.2019.1759

[5] Gamificação: O Guia Definitivo. https://www.ludospro.com.br/blog/gamificacao-o-guia-definitivo

[6] Inclusion of “gaming disorder” in ICD-11.  https://www.who.int/news-room/detail/14-09-2018-inclusion-of-gaming-disorder-in-icd-11

[7] LAUDAN, D.; NICA, E.; LĂZĂROIU, G. Structural and Functional Abnormality in Particular Brain Regions and Connections in Subjects with Internet Gaming Disorder (Igd). Annals of Spiru Haret University, Journalism Studies, [s. l.], v. 17, n. 2, p. 69–74, 2016. Disponível em: http://search.ebscohost.com.wallawalla.idm.oclc.org/login.aspx?direct=true&db=ufh&AN=120244423&site=ehost-live. Acesso em: 5 jul. 2020.

[8] Video gaming withdrawal symptoms https://cgaa.info/gaming-withdrawal-symptoms/

[9] Os dependentes de telas: o “vício sem substância” que começa aos 14 anos. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/23/actualidad/1553363424_494890.html#:~:text=O%20v%C3%ADcio%20em%20telas%20n%C3%A3o,atualizou%20a%20lista%20em%202013.

[10] Como proceder com o tratamento para vício em jogos online? https://hospitalsantamonica.com.br/como-proceder-com-o-tratamento-para-vicio-em-jogos-online/

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